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Manifestantes em protesto contra o presidente Nicolás Maduro, em Caracas

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"Leopoldo López está morto!". "Maduro fugiu para o exílio!". As mentiras sobre a crise venezuelana se alastram como pólvora nas redes sociais, onde é travada outra batalha que gera desinformação e histeria coletiva.

Uma mensagem no Twitter de um reconhecido jornalista venezuelano assegurou na última quarta-feira que López, o mais emblemático dos opositores presos, foi transferido "sem sinais vitais" da prisão para um hospital militar de Caracas.

Dezenas de milhares o replicaram, e inclusive o senador americano Marco Rubio assegurou ter a confirmação da internação de López, incomunicável há um mês, segundo sua família.

Mas enquanto os rumores cresciam, o dirigente chavista Diosdado Cabello divulgou um vídeo em que López confirmava a data da gravação, que teria sido no mesmo dia, e que estava bem.

Ainda assim, continuam circulando mensagens sobre o caso. Alguns acreditam que o governo lançou o boato para desviar a atenção das manifestações opositoras que já deixam 36 mortos em pouco mais de um mês; outros, que isto foi feito por sua família para conseguir uma "prova de vida"; e alguns ainda insistem que López morreu.

"O debate sobre as notícias falsas é mundial, mas em outros países há referentes informativos, críveis, que não temos na Venezuela. A desinformação é um terreno fértil para sua proliferação", disse à AFP Andrés Cañizales, pesquisador da Universidade Católica Andrés Bello.

- "Ciberterrorismo"

Em um país onde o Estado possui uma ampla de rede de meios de comunicação e 61% dos habitantes têm acesso à Internet, muitos optam pelo espaço livre das redes sociais para se informar.

Sete em cada dez venezuelanos investem entre 30 minutos e duas horas para fazer isto nessas plataformas ou em meios digitais, segundo a ONG Espaço Público.

Algumas televisões limitam, inclusive, a difusão de imagens dos violentos protestos que exigem a saída de Maduro, o que o Sindicato da Imprensa atribui a "um regime de censura e autocensura".

Assim, a informação sobre as manifestações encontra espaço nas redes sociais, mas compete com autênticos "laboratórios de guerra e ciberterrorismo", aponta a socióloga Maryclen Stelling.

Em 20 de abril, enquanto eram registrados roubos em uma zona popular de Caracas, que deixaram 11 mortos, viralizavam vídeos de luzes no palácio presidencial de Miraflores e mensagens que asseguravam que seus "refletores antiaéreos" estavam acesos.

Fervilhavam rumores sobre a "fuga" de Maduro, mas as luzes se tornaram o foco de um festival de teatro em uma praça próxima.

"Há uma saturação de informação intencional e, então, você suspende o julgamento crítico: não sabe o que é verdade e o que é mentira. Filtra de acordo com o grupo político ao qual pertence", acrescentou Stelling à AFP.

- Chacotas e insultos -

Conscientes da capacidade da influência das redes sociais, "governo e oposição abriram uma nova frente de batalha no ciberespaço", segundo a socióloga.

Maduro criou uma "Milícia Digital" para abrir em pontos de ruas contas no Twitter, Facebook e Instagram para quem não tem, enquanto a oposição usa esses canais para promover suas manifestações.

Maduro tem 3,1 milhões de seguidores no Twitter, e em seu programa de televisão costuma enviar mensagens ao vivo e postar fotos no Instagram.

Os líderes opositores não ficam atrás: o ex-candidato à presidência Henrique Capriles, com 6,6 milhões de seguidores no Twitter, transmite todas as suas intervenções pelo Periscope.

Muitas vezes, a troca de mensagens aumenta o tom.

"A Deus o que é de Deus. A César o que é de César. Ao Guaire o que é do Guaire", dizia uma mensagem retuitada por Maduro, com uma foto de manifestantes que se lançaram no rio Guaire, que recebe o esgoto de Caracas, fugindo das bombas de gás lacrimogêneo.

Capriles também divulgou um vídeo de Maduro dançando, enquanto em Caracas ocorriam fortes confrontos entre opositores e as forças de segurança, com a mensagem: "quem ri por último, ri melhor. Logo, todos aqueles que estão fugindo hoje, reprimidos, irão rir de você, @nicolasmaduro, e de seus corruptos. Escreva isso!".

Apesar da gravidade da crise, com a escassez de insumos básicos, alguns levam a situação com humor. O site satírico "El Chigüire Bipolar" publicou recentemente um guia para não ser vítima das notícias falsas.

"Muitas vezes acabamos compartilhando artigos falsos porque reafirmam nossas crenças. Sim, senhora, você pode gostar de compartilhar essa notícia de que quatro idosas desarmaram um guarda nacional e o deixaram nu, mas não seria melhor revisá-la primeiro?", indica o manual.

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