Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

Foto sem data mostra o líder do governo francês Georges Clemenceau em visita a uma trincheira na França durante a Primeira Guerra Mundial

(afp_tickers)

No dia 1º de agosto de 1914, o imperador Guilherme II ordena que seja servido vinho espumante a seus assessores civil e militar. Ele acaba de declarar guerra à Rússia, está a ponto de atacar a França e seu embaixador em Londres garantiu que a Grã-Bretanha se manterá neutra.

O Exército alemão acredita que o conflito será um passeio de poucas semanas. Mas trata-se apenas dos primeiros movimentos da Primeira Guerra Mundial, que vai durar quatro anos, custará dois milhões de vidas e vai provocar a queda do Império Alemão.

Horas antes, o kaiser tinha ordenado a mobilização geral, em resposta à decretada em 30 de julho pelo czar Nicolau II para intimidar o Império Áustro-Húngaro, que acabava de atacar a pequena Sérvia.

Há dois dias, a guerra se anunciava iminente na Alemanha, obcecada por um possível cerco por parte de Rússia, França e Grã-Bretanha, aliadas na Tríplice Entente.

Temendo uma escassez, os cidadãos estocam reservas de alimentos, e os preços disparam.

O imperador assina a declaração de guerra diante de satisfeitos estrategistas militares, alguns deles chorando de emoção ao verem a chegada do conflito para o qual tanto se prepararam, explica à AFP o historiador germano-britânico C.G. Roehl.

"Só conheço alemães"

Guilherme II se volta então para a multidão entusiasmada, reunida sob o balcão do castelo dos Reis da Prússia em Berlim, joia da arquitetura barroca.

"Se nosso vizinho não aceitar a paz, espero que o povo alemão e o império unido saiam vitoriosos deste conflito, com a ajuda de Deus".

"Não conheço partidos, só conheço alemães", acrescenta o kaiser, prussiano e protestante, pedindo a união entre social-democratas e católicos, hesitantes diante da guerra.

"Hurra!", clamam os burgueses, jogando seus chapéus para o alto.

Com a ordem de mobilização contra a Rússia, a máquina de guerra alemã é acionada, mas, paradoxalmente, a maioria dos soldados precisam rumar para o oeste.

O "plano Schlieffen" - preparado minuciosamente durante anos diante de um possível conflito com a Rússia - prevê um ataque inicial à França, aliada do império dos czares.

O objetivo é esmagar o Exército francês em poucas semanas, atacando pelo norte após a invasão da Bélgica, para depois enviar as tropas contra o Exército russo.

Berlim acredita que, com isso, evitará uma guerra de duas frentes, convencido da neutralidade da Grã-Bretanha.

O que os britânicos farão?

Mas um telegrama do príncipe Lichnowsky, embaixador da Alemanha em Londres, recebido por volta das cinco da tarde, quebra repentinamente o clima de otimismo, disse Roehl.

Segundo o diplomata, a Grã-Bretanha poderia se manter neutra apenas se a Alemanha atacasse somente a Rússia, e não a França.

Guilherme II sugere então ao chefe do Exército, Helmuth von Moltke, que este lance todas as suas tropas contra a Rússia.

Mas von Moltke não tem alternativa ao "plano Schlieffen" e protesta.

Ele considera que mudar de estratégia na última hora para atacar em primeiro lugar o leste coloca em risco todo o aparato militar alemão e ressalta que os russos não representam um perigo tão imediato quanto os franceses.

Revoltado, de acordo com testemunhas, von Moltke afirma que está perfeitamente preparado para combater o inimigo, mas não para suportar o imperador.

Pouco depois, chega um segundo telegrama de Lichnowsky: a Grã-Bretanha provavelmente permanecerá neutra, inclusive se a Alemanha atacar a França. Berlim respira aliviada: a guerra pode ser travada segundo o previsto. Guilherme II ordena que vinho espumante seja servido.

Mas o rei George V esclarece definitivamente a postura britânica, comunicando ao imperador que seu embaixador não o entendeu bem: a Grã-Bretanha não pode ficar de braços cruzados enquanto Alemanha destrói a França.

Guilherme II, de pijamas, ordena resignado a von Moltke: "Faça como quiser".

Um conflito apagado da memória alemã

Um século depois, a memória coletiva alemã terá praticamente esquecido o primeiro conflito mundial, apesar dos dois milhões de soldados mortos no campo de batalha e do sofrimento da população, assolada pela fome.

A lembrança dessa guerra perdida, travada principalmente fora do território alemão, ficará ainda mais diluída depois de 1945 pelo trauma infinitamente maior do nazismo e da Segunda Guerra Mundial.

Para evocá-la, os alemães não falam de Grande Guerra, como na França ou na Grã-Bretanha, e sim da "Catástrofe Original", que levaria Hitler ao poder em 1933.

O governo alemão não previu celebrações oficiais do Primeiro de Agosto nem do centenário da Primeira Guerra Mundial, embora o aniversário tenha reavivado algum interesse pelo tema.

No dia 28 de maio, a chanceler Angela Merkel inaugurou uma exposição sobre a guerra no Museu de História Alemã, em Berlim, e participou de uma conversa sobre o tema com jovens europeus.

No dia 3 de agosto, o presidente alemão, Joachim Gauck, vai se reunir com seu colega francês, François Hollande, na região francesa da Alsácia (nordeste) para lembrar o centenário da declaração de guerra da Alemanha à França, antes de participar, no dia 4, de outro ato em Liège (Bélgica), junto com dirigentes belgas e britânicos.

Em 28 de outubro, Merkel viajará, convidada pelo rei da Bélgica, ao campo de batalha de Ypres (Flandres), onde a Alemanha usou gases letais pela primeira vez em combate, em 1915.

AFP