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Escavadeira em Tell es-Sakan, no dia 9 de outubro de 2017, em Gaza

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Arqueólogos e defensores do patrimônio do enclave palestino da Faixa de Gaza conseguiram frear a destruição de um assentamento de 5.000 anos de antiguidade, mas o futuro deste testemunho excepcional do passado é incerto.

Tell es-Sakan é um local único, afirma o arqueólogo palestino Moain Sadeq, "talvez a única cidade cananeia fortificada do sul da Palestina", ocupada sem interrupção desde 3.200 a 2.000 antes de Cristo.

Desde a sua descoberta acidental em 1998, as escavadeiras deixaram marcas nos perímetros de Tell, uma colina criada artificialmente pelas ocupações humanas sucessivas, que se remontam à Idade do Bronze.

Há algumas semanas, máquinas destruíram boa parte das escavações realizadas entre 1999 e 2000 por Sadeq e seu colega francês Pierre de Miroschedji. O objetivo: construir moradias destinadas aos funcionários do território governado pelo movimento islamita Hamas.

As obras pararam graças à mobilização de arqueólogos, professores universitários e de simples amantes de um patrimônio devastado pelas guerras, pressão demográfica e pela indiferença.

Mas por quanto tempo? Essa é o questionamento em um território castigado por guerras, pobreza e pelo bloqueio de Israel e Egito.

Essa é a terceira vez desde 1998 que destroem o local, conta Sadeq, professor da Universidade do Catar.

A primeira serviu ao menos para revelar a existência da jazida arqueológica. Quando as escavadeiras começaram a demolir a torre de casas em 1998, os arqueólogos localizaram vestígios antigos e pararam as obras.

Mas os arqueólogos fugiram com a segunda intifada (2000-2005) e as explorações ficaram paralisadas.

Tell es-Sakan, de 300 metros de diâmetro, não chama a atenção ao profano em meio a uma paisagem de dunas.

Mas a areia esconde "uma jazida muito importante, imponente, com (vestígios de) fortificações, de casas. É uma cidade e não uma pequena cidade", afirma Sadeq.

Estrategicamente situada na via comercial costeira que une Egito e a antiga região de Canaã, e, mais além, Síria e Mesopotâmia, foi testemunha de uma época em que as cidades se desenvolveram.

Os vestígios mais antigos, os restos das casas de barro, a cerâmica e os fragmentos de badulaques revelam as relações estreitas com o Egito 1.000 anos antes da construção das pirâmides.

- Habitantes se mobilizam -

Os próprios moradores têm um vínculo especial com Tell es-Sakan. Vão ao local às sextas-feiras, dia de descanso semanal. As crianças brincam na areia, os jovens praticam motocross. Eles têm uma vaga ideia do que esse espaço significa, embora nenhum cartaz os recorde.

Eles mesmos deram o sinal de alarme quando as pás mecânicas voltaram recentemente, afirma Jean-Baptiste Humbert, diretor do laboratório de arqueologia da Escola Bíblica francesa de Jerusalém

O fizeram nas redes sociais e os especialistas reagiram.

Olhando as fotografias, Sadeq considera que os danos são "muito, muito importantes". "As estruturas das casas antigas, partes dos muros foram destruídos. O desmonte levou o mobiliário", sem que se saiba para onde, disse.

Humbert, que colaborou com a paralisação das obras no fim dos anos 1990, compareceu ao local no âmbito de uma missão apoiada pela França.

Sua avaliação e mobilização deram resultado: as autoridades promotoras do programa imobiliário aceitaram pará-lo, contou à AFP Jamal Abu Rida, responsável dos serviços arqueológicos de Gaza.

Os terrenos são propriedade da autoridade arqueológica e "ninguém tem o direito de se livrar deles", afirmou.

- 'Caçadores de borboletas' -

O conflito de interesses entre arqueólogos e agentes imobiliários é frequente.

"Quando estamos na jazida, nós, os arqueólogos, somos como caçadores de borboletas: 'que local extraordinário, 3.300 anos antes de Cristo, de influência egípcia'. E as autoridades de Gaza nos olham e dizem: 'vocês sabiam que desde a guerra de 2014 ainda há milhares de pessoas para serem realojadas? O que é mais importante?'", resume Humbert.

O Hamas é acusado de não cuidar do passado e do patrimônio, em particular quando não é islâmico.

"Há uma crise de moradia (...) 2,05 milhões de pessoas em Gaza", acrescenta Amal Shmalee, porta-voz da autoridade que lançou as recentes obras.

Por enquanto em Tell es-Sakan estão paralisadas, mas "não estou certo de que dure", afirma Sadeq, preocupado.

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AFP