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Fidel Castro conversando com o presidente francês, François Hollande, em Havana, no dia 11 de maio de 2015

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Confrontada por décadas a Fidel Castro, a Igreja católica de Cuba achou um interlocutor privilegiado em seu irmão e herdeiro político, Raúl Castro, depois de um lento processo de aproximação que foi selado com a visita de João Paulo II há 17 anos.

Após a revolução em 1959 "ocorreu um processo de tensão muito intenso que durou três anos", no qual Fidel impulsionou o ateísmo e expulsou cerca de 130 sacerdotes, disse à AFP o sociólogo cubano Aureliano Alonso, autor de livros e artigos sobre as relações Igreja-Estado.

A expulsão "foi a decisão mais radical e violenta da revolução contra a Igreja", pois "nem todos os sacerdotes eram espanhóis nem franquistas" como foi então dito, aponta Alonso.

Fidel respondeu também com o confinamento de religiosos em unidades militares de trabalho (entre eles o jovem sacerdote Jaime Ortega, atual cardeal) e a nacionalização das escolas privadas, incluindo as católicas, recorda o especialista.

Mas depois de mais de meio século, a visita do papa Francisco a Cuba a partir deste final de semana acontecerá em um ambiente muito diferente do de 1960, quando começou o enfrentamento entre Washington e Havana, e o clero conservador fechou fileiras com a oposição.

Depois de uma primeira época de grande tensão veio um período de "silêncio", até que em 1969 os bispos emitiram duas cartas pastorais conciliadoras, uma contra o embargo americano e outra a favor de relações entre fiéis e não fiéis.

Mas "Cuba já estava metida em uma projeção muito ateísta, muito ligada ao comunismo soviético", que se intensificaria com a adesão ao bloco econômico socialista, pelo qual as pastorais não foram levadas em conta, explica Alonso.

Sem Natal

Em 1970, Fidel eliminou o feriado do Natal e o primeiro Congresso do Partido Comunista (único), em 1975, acabou com qualquer possível aproximação com a Igreja.

A década de 1970 transcorreu sob essa projeção do governo cubano, que o impediu de ver as mudanças que vivia a Igreja na América Latina com as reformas do Concílio Vaticano II (1962-1965).

Contudo, nos anos 1980 "houve um processo de avanço e aproximação", segundo Alonso, com a publicação do livro "Fidel e a Religião" do dominicano brasileiro Frei Betto, precursor da Teologia da Libertação, enquanto Havana e Moscou começavam a se distanciar após a ascensão do líder reformista soviético Mikhail Gorbachov (1985).

Alonso afirmou que a Igreja cubana também buscou aplicar nestes anos os acordos da III Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano de 1979 em Puebla, México, que aprovou uma "opção preferencial pelos pobres".

Em 1986 houve um Encontro Nacional Eclesial, no qual a Igreja adotou uma posição mais pragmática e realista diante do governo, embora tenha continuado enclausurada na época, completa.

O fim do Estado ateu

O fim das tensões chegou com a visita do papa João Paulo II, em 1998.

"A visita aconteceria no início dos anos 90", pois Cuba o convidou em 1989, mas com "a queda socialista (na Europa Oriental) ocorria um recuo, uma dobra", toda vez que o Vaticano esperava uma mudança de sintonia", afirma o especialista.

Em meio à crise econômica ocorrida após o fim da assistência soviética, o Estado cubano deixou de ser ateu em 1992 e em 1994 João Paulo II nomeou cardeal o arcebispo de Havana, Jaime Ortega, um partidário do diálogo.

Em 1996, Fidel visitou o Vaticano e quando recebeu o papa polonês dois anos depois restituiu o feriado do Natal.

Em meio à críticas internacionais por direitos humanos, o cardeal Ortega e Raúl Castro inciaram um inédito diálogo em 2010, que conduziu à libertação de 130 presos políticos e abriu mais espaço para a Igreja.

Isto favoreceu a visita de Bento XVI em 2012, ocasião na qual se encontrou com Fidel e que Raúl aproveitou para restituir o feriado da Semana Santa.

Agora é comum que os bispos falem na televisão cubana, embora o governo não tenha acolhido o pedido de Bento XVI de autorizar a reabertura das escolas católicas.

AFP