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Irã presta homenagem a cientista assassinado e acusa Mossad israelense

Uma foto fornecida pelo Ministério da Defesa do Irã mostra o caixão do cientista assassinado durante seu funeral em Teerã em 30 de novembro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 30. novembro 2020 - 09:02
(AFP)

O Irã afirmou nesta segunda-feira que seu eminente físico nuclear assassinado na sexta-feira foi vítima de uma operação "complexa" envolvendo meios "completamente novos" e acusou o Mossad, o serviço secreto israelense.

No mesmo dia e com um protocolo digno dos maiores “mártires” da República Islâmica do Irã, as autoridades prestaram uma última homenagem a este cientista, Mohsen Fakhrizadeh, e prometeram continuar o seu trabalho.

Mohsen Fakhrizadeh foi morto perto de Teerã em um ataque com carro-bomba seguido de um tiroteio contra seu carro, de acordo com o ministério da Defesa, que posteriormente apresentou a vítima como vice-ministro da Defesa e chefe do Organização de pesquisa e inovação em defesa (Sépand). Poucos detalhes surgiram sobre as circunstâncias exatas do ataque.

Em entrevistas à mídia iraniana nesta segunda-feira, o almirante Ali Shamkhani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, falou de "uma operação complexa com o uso de equipamentos eletrônicos".

Os Mojahedins do Povo, um grupo de oposição no exílio, "deve estar envolvido", mas "o elemento criminoso de tudo isto é o regime sionista e o Mossad", afirmou.

Segundo ele, Mohsen Fakhrizadeh já havia sido alvo de tentativas de ataque no passado, "mas desta vez o inimigo usou um estilo e método totalmente novos, profissionais e especializados, e conseguiu atingir o objetivo que perseguia há 20 anos".

Sem citar fontes, a agência de notícias iraniana Fars afirmou que o ataque foi realizado com uma "metralhadora automática de controle remoto" e montada em uma picape Nissan.

Citando uma "fonte informada", a Press TV, um canal de notícias em inglês para a televisão estatal, relatou que as armas recuperadas do local do assassinato foram "fabricadas em Israel".

- "Permanecer desconhecido" -

Inimigo da República Islâmica do Irã, Israel não reagiu oficialmente às acusações lançadas desde sexta-feira pelas autoridades iranianas.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu apresentou em 2018 o cientista morto como chefe de um programa nuclear militar secreto, que o Irã sempre negou.

Mohsen Fakhrizadeh é um daqueles homens praticamente desconhecidos que alcançaram notoriedade póstuma. Pouco se sabe sobre ele, mas uma coisa é certa: era importante.

“Se nossos inimigos não tivessem cometido esse crime desprezível e derramado o sangue de nosso querido mártir, ele poderia ter permanecido desconhecido”, disse o ministro da Defesa Amir Hatami, incapaz de conter as lágrimas ao lado do corpo do físico, durante cerimônia no ministério da Defesa em Teerã. Mas hoje ele é "revelado a todo o mundo".

Os restos mortais foram homenageados no sábado e no domingo em Mashhad e Qom, dois lugares sagrados xiitas, assim como aconteceu com o general iraniano Qassem Soleimani em janeiro, assassinado por Washington no Iraque.

O retrato do general "mártir" foi colocado perto do caixão ao lado da imagem do cientista.

Este último fez "um trabalho considerável" no campo da "defesa anti-atômica" e o governo "dobrou o orçamento de Sépand", disse o general Hatami, negando que Mohsen Fakhrizadeh estivesse envolvido em qualquer programa nuclear militar.

- "Castigo decisivo" -

A oração fúnebre foi conduzida por Ziaoddine Aqajanpour, representante do guia supremo Ali Khamenei. “Teremos paciência (...) mas a nossa nação exige a uma só voz um castigo decisivo” contra os responsáveis pelo assassinato, afirmou.

O caixão do cientista foi enterrado em Imamzadeh-Saleh, um santuário em Teerã onde dois outros cientistas foram sepultados em 2010 e 2011, assassinatos também atribuídos a Israel.

Depois de acusar Israel, o presidente iraniano Hassan Rohani prometeu no sábado uma resposta à morte de Mohsen Fakhrizadeh.

Muitos ultraconservadores pedem o banimento dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) responsáveis por inspecionar atividades iranianas sensíveis, em conformidade com o acordo nuclear internacional concluído em 2015.

Mas esse pacto está à beira do abismo desde que o presidente Donald Trump, um aliado próximo de Israel, retirou unilateralmente os Estados Unidos dele em 2018, antes de restaurar as sanções econômicas contra o Irã.

O acordo oferecia a Teerã um alívio das sanções internacionais em troca de garantias para atestar a natureza exclusivamente pacífica de seu programa nuclear.

Joe Biden, eleito presidente dos Estados Unidos em novembro, mostrou sua vontade de salvar o que pode ser salvo deste acordo.

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