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Izkia Siches, a médica que desafia as autoridades no Chile

Izkia Siches em Santiago em 24 de março de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 01. julho 2020 - 13:07
(AFP)

Izkia Siches pensa apenas em um plano para tirar o Chile do drama do coronavírus e, como presidente do Colégio Médico, desafia o poder político ao demonstrar uma convicção científica que a transformaram em uma líder além da pandemia.

Em um país que enfrenta uma crise de confiança nas instituições e sem políticos de grande popularidade, a médica de 34 anos, que não esconde a irritação com a presidência do país, alimenta ilusões de uma nova liderança.

"Acredito que as figuras que surgiram, incluindo meu nome, representam a fome que existe no país por novas lideranças, mas penso que os chilenos e chilenas devem ser muito realistas de que não teremos homens ou mulheres que chegarão para resolver todos os problemas", declarou Siches em entrevista à AFP via Zoom.

Em meados de junho, quando o Chile perdeu o controle da pandemia e o país de quase 18 milhões de habitantes entrou para a lista de cinco nações do mundo com mais casos, Siches tinha 61% de aprovação entre as figuras públicas, segundo uma pesquisa do instituto 'Plaza Pública Cadem'.

Como reflexo da polarização política, esta mulher que se define como de esquerda, dividia o primeiro lugar das preferências com o prefeito do município de Las Condes, o político de direita Joaquín Lavín.

A imprensa e as redes sociais recordam que Siches apresentou as medidas que deveriam ser adotadas no início do confinamento em março: "Apontamos a relevância de poder ter uma estratégia de testagem, rastreabilidade e isolamento".

Assim como os especialistas em epidemiologia, ela seguiu as ordens das autoridades, mas sem poupar críticas.

"Não sei em que país vivem as autoridades do governo", afirmou em 14 de maio, quando ministros, prefeitos de áreas luxuosas e o próprio presidente Sebastián Piñera celebraram o fato de o país ter alcançado o "platô".

Ex-militante das Juventudes Comunistas, ela não tem a idade mínima para disputar a presidência (35 anos), mas não hesita em criticar o governo, que para ela não observa o que acontece no Chile real".

- Do "Chile real" -

Nascida em 4 de março de 1986 em Arica, norte do país, e criada em Maipú, subúrbio de classe média de Santiago, Siches repete que estudou Medicina na estatal - paga - Universidade do Chile com muito esforço.

As férias em família, com os pais e a irmã, em sua região natal a fizeram conhecer um país de contrastes sociais que a pandemia revelou de maneira incontestável.

"Antes do próprio sistema de saúde, está tudo o que observamos desde a explosão social que agora se tornou muito mais evidente, sobretudo pelos erros do governo, revelando um país extremamente desigual, com muito emprego informal, muita vulnerabilidade dos trabalhadores", ressalta.

Funcionária do hospital público 'San Juan de Dios', que atende as zonas mais vulneráveis de Santiago, sua agenda está lotada pelas reuniões do Colégio Médico, do qual se tornou em 2017 a primeira mulher a presidir em 70 anos.

Admiradora da primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern, sua popularidade aumentou com suas opiniões sobre a pandemia e sua percepção do país.

Em maio, quando as autoridades pregavam o retorno seguro à normalidade, Siches expressou reservas. No fim do mês, o Chile registrava recordes e agora se aproxima de 9.000 mortes e quase 280.000 casos.

"Os políticos e seus amigos vivem em outro Chile, seus filhos estudam em outro Chile, não têm contato com o Chile real, e se têm o fazem do papel de autoridade pública", afirma.

Este "outro país", completa, "é muito desigual, com níveis importantes de emprego informal, onde as pessoas ganham o sustento dia a dia, muito comércio ambulante, famílias grandes, educação ruim para os mais pobres".

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