AFP

Rua de Pristina, em 9 de junho de 2017

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As eleições legislativas deste domingo podem iniciar um período de incerteza no Kosovo, onde a velha guarda dos "guerreiros" apareceu na liderança, mas sem garantir maioria sólida diante dos partidos que pedem "mudança".

Pouco depois das 21H00 GMT (18H00 horário de Brasília) e com 90% dos votos apurados, a ONG independente Democracy in Action anunciou que "coalizão dos guerreiros", reunida por trás do Partido Democrático de Kosovo (PDK) do presidente Hashim Thaçi, tinha 33,1% dos votos.

Os outros dois partidos principais, Vetevendosje (esquerda nacionalista) e Liga Democrática de Kosovo (LDK, centroderecha) vieram em seguida, com 26,6% e 25,3%, respectivamente.

"Pedimos aos partidos que não celebrem logo", alertou Ismet Kryeziu da "Democracy in Action" quando o cenário começou a ser definido na capital, Pristina.

Mas o líder da coalizão dos "guerreiros", Ramush Haradinaj, comemorou a "vitória convincente" e anunciou que se empenhará em formar um governo.

A divisão dos assentos não deve ser anunciada até segunda-feira. Entretanto, Haradinaj está longe de alcançar as 51 cadeiras (de 120), mas o apoio dos 10 deputados das minorias não sérvias (roms, bósnios, turcos, por exemplo) lhe permitiria formar governo. Entre 100.000 e 150.000 sérvios elegem também 10 deputados.

- Acusações de alto risco -

Esses resultados anunciam delicadas negociações que podem resultar em uma maioria frágil enquanto Kosovo enfrenta numerosos desafios: uma situação econômica catastrófica que empurra muitos de seus jovens ao êxodo e relações muito tensas com a Sérvia, que continua sem reconhecer a independência proclamada em 2008 por sua antiga província albanesa.

Também deverá lidar com a possível imputação de alguns dirigentes do país balcânico nas novas cortes especiais encarregadas de julgar os crimes de guerra cometidos pelo Exército de Libertação de Kosovo(UCK). Entre os nomes regularmente citados está o do presidente Hashim Thaçi, no cargo desde 2006.

Quando acontecerem as primeiras prisões, previu antes das eleições o Centro Europeu para Assuntos das Minorias (ECMI), haverá um "verdadeiro risco de instabilidade" e de derrubada do governo.

A última guerra étnica na ex-Iugoslávia, um conflito entre os separatistas albaneses e as forças sérvias, deixou 13.000 mortos entre 1998 e 1999, incluídos 10.000 albano-kosovares.

O PDK e seus aliados poderiam estar à mercê de um acordo de governo entre LDK e Vetevendosje. Mas esses partidos só parecem compartilhar sua oposição aos "guerreiros", e têm posições muito diferentes sobre o diálogo com a Sérvia.

O candidato da LDK, Avdullah Hoti, quer dar continuidade, enquanto que o carismático líder do Vetevendosje, Albin Kurti, se opõe ao acordo de normalização alcançado em 2013 com Belgrado.

Nesse ponto parece muito mais próximo ao ex-rebelde Ramush Haradinaj, de apelido "Rambo" e considerado um criminoso de guerra pela Sérvia, que chama de "inimiga".

- Guerra contra a corrupção -

O Vetevendosje (Autodeterminação), um partido que promove a ação de rua e cujos deputados lançaram gases lacrimogêneos no parlamento para se opôr à adoção de uma lei, duplica seu resultado de 2014.

Seu discurso, que mistura temas econômicos de esquerda, luta contra a corrupção e retórica nacionalista, parece ter respondido à irritação de uma parte do eleitorado deste país de 1,8 milhão de habitantes e com uma taxa de desemprego que se aproxima dos 30%.

Ekrem Haziri, um aposentado de 66 anos, espera que essas eleições abram um novo capítulo: "Chegou a hora de parar o desvio de dinheiro dos contribuintes".

"Depois de 17 anos no poder", as instituições "se caracterizam agora pelo crime, pela corrupção e pelo nepotismo", acusou em um relatório o centro esloveno de reflexão especializado nos Bálcãs IFIMES.

Se o problema não for resolvido, os kosovares "esperarão em vão a abolição do regime de vistos para os Estados da União Europeia", prevê o IFIMES.

Um tema crucial em um país em que um em cada dois habitantes tem menos de 30 anos e muitos sonham com o caminho do exílio, já seguido por 400.000 compatriotas.

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