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(Arquivo) Leopoldo López (e) e Antonio Ledezma

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Os dois presos mais emblemáticos da oposição venezuelana, Leopoldo López e Antonio Ledezma, que estavam em prisão domiciliar, foram detidos na madrugada desta terça-feira após seus apelos contra a Assembleia Constituinte do presidente Nicolás Maduro, que será instalada nesta quarta-feira para administrar o país por tempo indefinido.

López e Ledezma foram detidos por agentes do Serviço de Inteligência (Sebin).

Segundo o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), López e Ledezma foram levados de volta à prisão por supostos planos de fuga e suas declarações políticas.

López não podia "fazer nenhum tipo de proselitismo político" e Ledezma tinha "a obrigação de se abster de fazer declarações a qualquer meio", assinalou um comunicado do TSJ.

A oposição venezuelana e os advogados de defesa de López e Ledezma negaram de forma contundente que os dois líderes tivessem a intenção de fugir.

"Isso é ridículo, isso é um passo atrás do governo. É indigno, é inaceitável, absolutamente arbitrário [...]. O governo está demonstrando que é um governo ferido, que não tem razão, mas força bruta pra tentar meter medo na sociedade", declarou Julio Borges, presidente do Parlamento.

Os dois foram levados para a prisão militar de Ramo Verde, subúrbio de Caracas, confirmaram advogados e familiares, que responsabilizaram Maduro por sua segurança.

A prisão dos opositores provocou reações da comunidade internacional. O Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU declarou que está "profundamente preocupado" com as prisões e pediu a Caracas que liberte todos aqueles que exercem os seus direitos democráticos.

A porta-voz da Casa Branca Sarah Huckabee disse que "os Estados Unidos condenam as ações da ditadura de Maduro e consideram que o regime é o responsável" pela integridade dos dois políticos.

Washington está "profundamente preocupado com as prisões de López e Ledesma, outro passo na direção equivocada para Venezuela", escreveu o subsecretário adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Francisco Palmieri.

Na América Latina, Brasil, Uruguai, Chile e Costa Rica expressaram sua rejeição à prisão dos dois líderes opositores.

A Espanha promoverá sanções junto à União Europeia contra as prisões, enquanto o secretário-geral da ONU, António Guterres, exortou o governo a resolver as tensões.

Já a União Europeia (UE) condenou as detenções, que considerou um "passo na direção equivocada", nas palavras da porta-voz da diplomacia do bloco, Catherine Ray.

As residências de López e Ledezma ficam na zona leste de Caracas, principal cenário dos protestos dos últimos quatro meses contra Maduro que deixaram mais de 120 mortos.

López, de 46 anos, estava em prisão domiciliar desde 8 de julho, depois de passar três anos e cinco meses na prisão militar de Ramo Verde, nas proximidades de Caracas, onde cumpria uma pena de quase 14 anos, condenado pela acusação de instigar a violência nos protestos de 2014 contra Maduro, que deixaram 43 mortos.

Ledezma, de 62 anos, foi detido em fevereiro 2015, acusado de conspiração e associação para delinquir. Três meses depois obteve o benefício da prisão domiciliar por motivos de saúde, depois de ser operado de uma hérnia.

A ONG Foro Penal afirma que a Venezuela tem 490 "presos políticos", após a onda de detenções nos protestos iniciados em abril para exigir a saída de Maduro.

- Levado de pijama -

Ledezma foi tirado de sua casa de pijama enquanto uma vizinha gritava por socorro, segundo imagens divulgadas nas redes sociais. Sua mulher, Mitzy Capriles, qualificou a ação de "sequestro" e pediu, da Espanha, que uma "equipe de legistas" o examine. "Temos uma profunda angústia".

Em um vídeo difundido nas redes sociais e gravado antes de ser preso, López deu a entender que sua mulher, Lilian Tintori, atualmente nos Estados Unidos, está grávida do terceiro filho.

"Aqui há outra razão para lutar pela Venezuela, que foi uma das melhores notícias que recebi, ou a melhor que recebi nos últimos três anos e meio", disse López sorridente, enquanto acariciava a barriga de sua esposa.

"Se você está vendo esse vídeo, é porque vieram e me prenderam novamente de forma ilegal e injusta", sustentou López, sentando em um sofá ao lado de Tintori, em vídeo gravado em 17 de julho.

A Venezuela, que sofre uma severa crise econômica, entrou em uma nova etapa do conflito político com a eleição dos 545 representantes da Constituinte, que modificará a Carta Magna de 1999, aprovada no governo do presidente Hugo Chávez, falecido em 2013.

"Nas próximas horas, a Assembleia Nacional Constituinte começará a exercer seu poder absoluto, plenipotenciário", disse o presidente venezuelano na véspera, depois de Washington anunciar sanções financeiras e jurídicas contra aquele que chamou de "ditador".

Maduro ameaçou na segunda-feira retirar a imunidade parlamentar e advertiu que "alguns terminarão na cela.

Os dois líderes opositores detidos nesta terça-feira fizeram apelos na última semana para que as pessoas não votassem no domingo na eleição da polêmica Assembleia Constituinte, rejeitada pela oposição e por vários países.

Em um vídeo divulgado na semana passada, López pediu aos militares que não fossem "cúmplices" do "aniquilamento do Estado". Em várias mensagens no Twitter pediu à população que permanecesse nas ruas até obter o "retorno da democracia" e à comunidade internacional que não reconhecesse a Assembleia Constituinte.

O prefeito Ledezma também divulgou um vídeo, no qual aparecia com uma bandeira venezuelana ao fundo e defendia a resistência ao que chamou de "regime totalitário" e "tirania". Ele advertiu que assumia os riscos pela publicação da mensagem.

Maduro afirma que a Constituinte promoverá a paz e o diálogo, mas a oposição, que se recusou a participar na eleição, considera que é uma tentativa do presidente de perpetuar-se no poder, instaurar um modelo comunista e neutralizar os críticos e adversários.

A Constituinte será instalada na quarta-feira, dia em que a coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) convocou um protesto em Caracas para denunciar sua "ilegitimidade".

A MUD considera uma fraude o resultado oficial de oito milhões de eleitores (42,5% de participação), enquanto Maduro chamou o mesmo de "triunfo histórico.

AFP