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Legado de Zapata segue disputado no México cem anos após sua morte

Atores marcham durante aniversário de morte do herói mexicano Emiliano zapata em Chinameca, estado de Morelos, 10 de abril de 2019 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 10. abril 2019 - 20:07
(AFP)

Cem anos depois de sua morte, o legado de Emiliano Zapata, o revolucionário mexicano que lutou pelos camponeses indígenas despossuídos, é disputado por um governo que diz reivindicá-lo e pelo repúdio de seus herdeiros mais radicais, protagonistas de um levante há 25 anos.

O assassinato do chamado "Caudilho do Sul", cujo centenário é lembrado nesta quarta-feira (10), é uma comemoração que o presidente esquerdista Andrés Manuel López Obrador estendeu a todo este ano por se tratar de uma personalidade histórica que está entre os pilares ideológicos de sua chamada "Quarta Transformação", com a qual propõe uma mudança radical das instituições e da política mexicanas.

Mas o chamado Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que pegou em armas no estado de Chiapas (sul), em janeiro de 1994 - quando o país celebrava o início de seu vital tratado de livre comércio com Estados Unidos e Canadá -, diverge e acusa López Obrador de ser um presidente "trapaceiro", que quer "destruir" os povos originários.

"Há ali, digamos, um pleito pela figura e pelos símbolos de Zapata entre López Obrador e (seu partido), Morena, de um lado, e os zapatistas do EZLN, sem dúvida", diz o analista José Antonio Crespo.

Zapata, um dos líderes mais célebres da Revolução Mexicana e precursor da reforma agrária, morreu em Chinameca, estado de Morelos (centro), em uma emboscada montada por adversários políticos próximos do governo, partidários do velho sistema latifundiário.

Cem anos depois, se mantém como um personagem que desperta divisões.

Em janeiro, o EZLN advertiu que se oporá aos "projetos de destruição" do atual governo, como a criação de uma Guarda Nacional, já aprovada pelo Congresso, ou a construção de um trem de passageiros no sul do país, que cruzará por Chiapas, reduto do movimento.

Os zapatistas sempre tiveram diferenças claras com López Obrador. Em 2006, a primeira vez que "AMLO" foi candidato à presidência, o subcomandante Marcos, por anos o porta-voz do EZLN, pediu abertamente que não se votasse nele.

- Herança revolucionária -

Para Crespo, o uso político da história e de seus principais personagens e símbolos sempre foi uma marca registrada de López Obrador, embora seja um fenômeno usual em todos os países.

"Sim, acredito que não tem a ideia e o propósito de fazer uma transformação social, inspirada nos princípios da revolução", diz o analista.

"Mas pelo mesmo motivo, também acredito que ele se concebe como um revolucionário e, portanto, justifica, embora não o diga, a centralização do poder político", adverte Crespo.

Opositores a AMLO argumentam que as promessas de uma "mudança de regime" oculta a intenção de instaurar um regime autoritário, que ocupe espaços de poder e atente contra a autonomia das instituições.

Felipe Ávila, historiador especializado nas revoluções do México, considera, ao contrário, a Quarta Transformação uma oportunidade de "aterrissar" os ideias e aspirações de Zapata "de construir um México mais justo, equitativo, democrático, livre".

"As pessoas com as quais Zapata se comprometeu, pelas quais lutou, continuam sendo - seus herdeiros - uma população que carece de muitíssimas coisas. Nos setores rurais, camponeses e, sobretudo, indígenas é onde ainda prevalecem os maiores índices de marginalização e pobreza" do país, diz Ávila.

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