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Médicos de Manaus, angustiados com a virulência da nova onda da pandemia

Familiares de pacientes infectados com o coronavírus fazem fila por longas horas para encher seus cilindros de oxigênio em Manaus, em 19 de janeiro de 2021. afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 20. janeiro 2021 - 15:50
(AFP)

Médicos na linha de frente do combate à covid-19 em Manaus se dizem angustiados com a agressividade da nova onda da pandemia, que poderia estar relacionada com a variante detectada inicialmente no Japão em pessoas que retornaram da Amazônia brasileira.

Outra hipótese atribui a alta mortalidade das últimas semanas à impossibilidade de atender a uma explosão nas demandas por internação, que provocaram escassez de oxigênio nos hospitais.

O doutor Ruy Abrahim, que coordena o serviço de urgências de Manaus, destaca uma evolução rápida dos pacientes ao estado crítico e um aumento do número de pessoas que morrem em casa antes de receber assistência. Também menciona a multiplicação de casos graves em pacientes de todas as idades.

"A gente agora atende muito caso de óbito. O SAMU chega na residência e o paciente já foi a óbito. [Acontece] muito mais do que no ano passado", explica Abrahim à AFP.

O serviço de emergência de Manaus recebe 1.300 chamadas por dia, 80% delas por problemas respiratórios. Em tempos normais, são de 800 a mil chamadas, geralmente por traumatismos diversos.

Com 37 ambulâncias para atender uma cidade de 2,2 milhões de habitantes, atualmente só consegue atender 15% das chamadas.

"Realmente é muito angustiante, principalmente para o médico regulador que fica recebendo as chamadas e percebe que o paciente precisa de ajuda urgente, mas não tem como ajudar", diz Abrahim, com a voz embargada pela emoção.

"Existem momentos em que o médico tem que escolher [a quem atender], é uma situação muito tensa".

"Os pacientes estão chegando com uma saturação muito crítica de oxigênio, em níveis quase incompatíveis com a vida", confirma um enfermeiro de um hospital público, que pediu para não ser identificado.

- Sem imunidade de rebanho -

O epidemiologista Julio Croda acredita que em Manaus possa estar ocorrendo uma reinfecção em massa depois da ampla propagação do vírus no ano passado, sem descartar que seja potencializada pela nova variante.

"A gente fica bastante preocupado porque essa mutação pode estar associada à maior transmissão", diz à AFP.

Um estudo de setembro de 2020, que contou com a participação de cientistas da Universidade de São Paulo, sugeriu que a capital amazonense poderia ter alcançado a imunidade de rebanho depois da primeira onda.

Mas Croda ressalta que até hoje só há incertezas sobre a duração dos anticorpos e sua eventual resistência a uma variante do vírus.

- "Cenário de guerra" -

"Sabemos que algo muito grave e muito diferente ocorreu na transmissão entre novembro e dezembro", diz à AFP o pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz-Amazônia.

Mas o epidemiologista pede cautela antes de se tirar conclusões sobre uma nova variante mais letal e contagiosa.

"Manaus só descobriu que tínhamos uma cepa porque o Japão ligou. Isso significa que ou não estamos fazendo rastreamento ou estamos fazendo muito mal. Provavelmente temos mais cepas, mas não sabemos", acrescenta.

"A única coisa que a gente sabe é que no dia 14 [de janeiro] morreram 100 pessoas asfixiadas pela falta de oxigênio", afirma, esclarecendo que o número não é oficial, mas um cálculo feito a partir de boletins hospitalares.

A crise levou muitos moradores de Manaus a improvisar tratamentos em casa.

"Pode ser que não necessariamente seja uma cepa mais letal, senão que estamos em um cenário de guerra", diz Orellana.

O pesquisador fala da possibilidade de que os pacientes estejam chegando tarde demais ao hospital e que os tratamentos em casa, com a administração de oxigênio por pessoas não especializadas, sejam "um tiro no pé".

Na entrada do hospital 28 de agosto, centro de referência para o tratamento de covid-19, as histórias de familiares se repetem: a maioria só decidiu vir quando o oxigênio estava acabando.

O estresse no sistema público é tal que os boletins médicos são divulgados a cada 48 horas, em frente ao local.

"Meu pai está sendo atendido em uma cadeira de rodas porque não há leitos", lamenta Luiza Pereira, de 34 anos, que está sem notícias há dois dias.

As ambulâncias entram e saem sem parar.

Com uma população de 211,8 milhões de habitantes, o Brasil já perdeu mais de 211.000 vidas para a covid-19, mais de 4.000 delas em Manaus.

Croda adverte que a situação na capital amazonense pode se repetir em outros lugares e que "se [a nova variante] for realmente mais contagiosa, ainda veremos um aumento maior de casos e óbitos".

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