AFP

O prefeito de Le Havre Edouard Philippe, em Le Havre, em 11 de maio de 2017

(afp_tickers)

O novo presidente da França, Emmanuel Macron, nomeou nesta segunda-feira (15) como primeiro-ministro Edouard Philippe, um deputado do partido de direita Os Republicanos, antes de viajar a Berlim, em uma demonstração da prioridade que atribui ao eixo franco-alemão e à recuperação europeia.

A designação do deputado de 46 anos, que não pertence ao movimento do presidente - A República em Marcha -, reflete o desejo de união do centrista e pró-europeu Macron, que precisa atrair parte dos conservadores para conquistar a maioria nas eleições legislativas de junho e, assim, conseguir realizar suas reformas liberais e sociais.

Ao assumir o cargo nesta segunda-feira à tarde, o primeiro-ministro assegurou ser "um homem de direita", ressaltando que "o interesse geral deve prevalecer sobre qualquer compromisso".

Em entrevista à televisão francesa agora à noite, Philippe indicou que "a situação" do país implica "tentar algo que nunca se tentou", com homens e mulheres de direita, de centro e de esquerda em um mesmo governo.

Relativamente desconhecido do público em geral, o novo inquilino de Matignon já atravessou no passado as linhas políticas tradicionais.

Prefeito pelo partido Os Republicamos (LR) da cidade de Le Havre (noroeste) e próximo do ex-primeiro-ministro Alain Juppé, em sua juventude, antes de se unir às fileiras da direita, Philippe militou a favor do socialista Michel Rocard e de sua linha social-democrata.

A princípio esperada para terça-feira, a composição do novo governo francês será outro teste da recomposição política prometida por Macron, eleito com um projeto "nem de esquerda nem de direita", depois de uma campanha que revelou fraturas profundas no país.

Em seu primeiro discurso oficial, o presidente mais jovem da história da França prometeu no domingo "reunir e reconciliar" os franceses. À noite, desejou "que a globalização e a abertura do nosso país beneficie a todos".

'Decisão individual'

A nomeação de Philippe provocou uma série de reações na classe política francesa, após uma campanha eleitoral cheia de reviravoltas, marcada por um resultado histórico da extrema direita, pela eliminação dos partidos tradicionais e pelo voto de protesto dos excluídos da globalização.

O secretário-geral dos Republicanos, Bernard Accoyer, evocou uma "decisão individual" do novo primeiro-ministro, e não "um acordo político".

Alain Juppé estimou que seu ex-protegido tem "todas as qualidades" para o cargo, mas reafirmou seu apoio aos candidatos da direita para as eleições legislativas.

"A direita acaba de ser anexada", considerou por sua vez o líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, que obteve quase 20% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial.

Para a líder da extrema direita, Marine Le Pen, a nomeação "confirma" que não há uma clara separação entre os socialistas e a direita na França na hora de governar.

Os partidários de Macron, que criou seu movimento político há um ano, elogiaram a escolha do presidente, que permite "aplacar algumas fraturas ideológicas", avaliou o senador do LR Jean-Baptiste Lemoyne, que se uniu ao novo mandatário.

Encontro com Merkel

Pouco depois do anúncio do novo premiê, Macron viajou para Berlim, onde se reuniu com a chanceler Angela Merkel para tratar da situação da União Europeia (UE). No domingo, a alemã obteve uma importante vitória eleitoral na última votação regional antes das legislativas de setembro na Alemanha.

Em sua primeira viagem internacional no cargo, Emmanuel Macron pediu uma "reforma histórica" da Europa, especialmente em um contexto de aumento dos movimentos antissistema e antieuropeus e diante do risco de desintegração do bloco.

Depois de sua reunião com Angela Merkel, ambos disseram estar dispostos a mudar os tratados para reformar a UE, se for necessário.

"Do ponto de vista alemão, é possível mudar os tratados, se tiver uma utilidade", admitiu Merkel, enquanto Macron disse "não ter reparos a fazer" a essa ideia.

Merkel havia saudado a vitória do centrista contra a extrema direita, dizendo que carregava a esperança "de milhões de franceses e também de muitos na Alemanha e na Europa". Mas as discussões não serão fáceis.

"Como conservadora, sua flexibilidade com Macron é muito limitada", admitiu um ministro alemão, que pediu para não ser identificado.

Para a deputada europeia Sylvie Goulard, próxima do novo presidente, Paris "não quer um confronto" com Berlim, esperando "abordagens cooperativas".

Já a imprensa alemã listou, desde a eleição de Macron, uma série de fontes previsíveis de desacordo.

Emmanuel Macron pediu um "novo Tratado fundador" da União Europeia. Mas a ideia de reformar os tratados europeus, após a rejeição por referendo na França do projeto de Constituição Europeia em 2005, é uma bandeira vermelha em Berlim.

O francês deseja um orçamento, um Parlamento e um ministro das Finanças para a zona do euro, assuntos que podem desagradar à chanceler e a seu partido democrata-cristão (CDU), muito ligado à ortodoxia financeira.

"O amigo querido. Macron salva a Europa... e são os alemães que devem pagar", era a manchete de Der Spiegel no sábado.

Macron, de 39 anos, recebeu no domingo (14) a faixa presidencial do socialista François Hollande. Sua vitória na eleição presidencial em 7 de maio agitou o cenário político francês.

AFP

 AFP