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O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Caracas, em 3 de maio de 2017

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O presidente Nicolás Maduro ordenou a militarização do estado de Táchira após os distúrbios que deixaram um jovem de 15 anos morto, elevando para 43 o número de mortos nos protestos da Venezuela, em uma nova escalada da crise abordada nesta quarta-feira pelo Conselho de Segurança da ONU.

Com a morte do adolescente em uma manifestação na terça-feira, iguala-se o número de vítimas fatais deixadas pelas manifestações contra Maduro entre fevereiro e maio de 2014, convertendo estes protestos nos mais trágicos dos últimos anos no país.

Entre a noite de terça e quarta-feira, dezenas de estabelecimentos comerciais foram roubados e duas delegacias de polícia e uma base militar foram atacadas com bombas em Táchira (fronteira oeste com a Colômbia), onde muitos negócios permaneciam fechados por medo de novos atos de vandalismo.

"Ordenei o envio de 2.000 guardas e 600 tropas de operações especiais", declarou o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López.

A oposição rejeitou a medida afirmando que a militarização de Táchira servirá apenas para aumentar a repressão.

"Nesta fase estão usando paramilitares e grupos civis armados (...). É o braço armado da revolução (...)", denunciou o governador Henrique Capriles, que convocou a população a intensificar os protestos diante da "repressão".

Freddy Guevara, vice-presidente do Parlamento dominado pela oposição, disse à AFP que a decisão evidencia o desgaste da polícia em Táchira e da Guarda Nacional após 46 dias de protestos contra Maduro.

"É um símbolo de debilidade. Os manifestantes superaram a Guarda Nacional e a polícia (...). Táchira colocou a ditadura contra a parede".

O vice-presidente do Parlamento, Freddy Guevara, pediu à população mais "resistência". "A ditadura pretende militarizar Táchira. A melhor forma de responder será a pressão nas ruas e no resto do país".

Focos de violência foram registrados em outros pontos do país. Nesta manhã houve confrontos em San Antonio de Los Altos, na periferia de Caracas.

"Não podemos falar de manifestações. Trata-se de ações subversivas para desestabilizar o governo (...), que está entrando numa fase de insurgência armada", disse o general Padrino López, advertindo os opositores: "não se equivoquem porque já estamos cansados".

Os protestos têm como combustível uma grave deterioração econômica e social que atinge o país há anos, com uma severa escassez de alimentos e remédios, uma inflação que é a mais alta do mundo e uma criminalidade generalizada.

- "Menos bombas, mais remédios" -

Médicos, enfermeiras e outros trabalhadores protestaram nesta quarta-feira em Caracas, dispostos a chegar até o Ministério da Saúde, mas precisaram mudar de rota porque seus pares chavistas participaram de um ato em apoio a Maduro.

"Tanques não, ambulâncias sim", "menos bombas, mais remédios", eram vistos em cartazes dos manifestantes, que criticavam o uso de bombas de gás lacrimogêneo e veículos blindados para conter os protestos opositores.

Com suas roupas brancas, médicos e enfermeiras, acompanhados por líderes do setor da saúde e representantes de pacientes marcharam gritando: "não queremos armas, queremos remédios!".

Os manifestantes entregaram a um enviado do Ministério da Saúde um documento em que exigem a solução da grave crise na Saúde e a abertura de um canal humanitário.

"A escassez de medicamentos chega a quase 90%. É uma situação catastrófica na Saúde", disse Francisco Valencia, presidente de uma ONG que auxilia pacientes.

Há uma semana, Antonieta Caporale foi retirada de seu cargo de ministra da Saúde após divulgar um boletim que revelou que a mortalidade infantil aumentou 30,12% em 2016 e a materna 65%, enquanto doenças já erradicadas como a malária são novamente diagnosticadas.

- Protesto com luzes -

Como homenagem aos falecidos nos protestos, os opositores organizam concentrações noturnas em Caracas, um desafio à insegurança em um país com 70,1 homicídios para cada 100.000 habitantes, oito vezes mais que a média mundial.

Ao apelidar esse protesto de "simbologia facista", Maduro renovou na terça-feira suas acusações sobre um plano de Washington para intervir na Venezuela, e denunciou uma "campanha de perseguição". "Somos os novos judeus do século XXI", afirmou.

A oposição exige eleições gerais e rechaça uma Assembleia Constituinte "popular" convocada por Maduro, por considerá-la uma "fraude" com a qual busca se manter no poder.

Maduro, cuja gestão é rechaçada por 70% dos venezuelanos segundo as pesquisas, assegura que a Constituinte tratá paz e prometeu que em 2018 haverá eleições presidenciais, mas não gerais.

As manifestações já deixam centenas de feridos e detidos, entre eles 159 presos por ordem de tribunais militares, segundo a ONG Foro Penal.

Na quinta-feira, os opositores marcharão até a sede do Ministério do Interior e no sábado estão previstas manifestações em todo o país.

- Advertências internacionais -

A situação na Venezuela tem preocupado a comunidade internacional. O Conselho de Segurança da ONU discutiu pela primeira vez nesta quarta-feira a crise no país, a pedido dos Estados Unidos.

"A Venezuela resolverá seus problemas internos (...) Nós mesmos faremos isto. Não aceitamos ingerência nem proteção" dos Estados Unidos, disse a jornalistas o embaixador venezuelano na ONU, Rafael Ramírez.

A embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, advertiu que a Venezuela está "à beira da crise humanitária".

A crise "não está melhorando, está piorando e o que estamos tentando dizer é que a comunidade internacional precisa declarar: 'respeitem os direitos humanos de sua população' ou isso irá na direção que vimos tantos outros se dirigirem".

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, se declarou pela primeira vez muito preocupado por Venezuela e disse que está em contato com vários mediadores para facilitar uma saída para a crise.

Os ministros das Relações Exteriores da Organização dos Estados Americanos (OEA) tratarão esta crise em 31 de maio.

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