As forças turcas intensificaram seus bombardeios contra alvos curdos no norte da Síria, buscando tomar setores fronteiriços, no terceiro dia de uma ofensiva que levou à fuga de mais de 100 mil pessoas, de acordo com a ONU.

Segundo um último boletim do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), desde quarta, início da ofensiva, 54 combatentes curdos e 17 civis perderam a vida. Já Ancara anunciou a morte de quatro de seus soldados e de 17 civis, em meio ao lançamento de foguetes sobre as cidades na fronteira.

Depois de retirarem seus soldados, na semana passada, de setores sírios próximos do limite com a Turquia, o governo americano deu declarações contraditórias nesta sexta-feira (11).

Em meio à ofensiva de Ancara no território sírio, o Departamento do Tesouro americano anunciou que o presidente Donald Trump autorizou sanções contra a Turquia, embora ainda não as tenha colocado em vigor.

"Donald Trump tem a intenção de firmar um decreto para dissuadir a Turquia de prosseguir sua ofensiva militar no nordeste da Síria", declarou o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin.

Mais cedo, o secretário da Defesa dos EUA, Mark Esper, já havia advertido a Turquia para "graves consequências", caso não interrompa a operação. Ao mesmo tempo, reconheceu que não há indícios de que Ancara esteja pensando em recuar.

"Não tenho indicação de que eles querem parar com sua operação", afirmou o secretário Esper, em entrevista coletiva em Washington, com base em uma conversa por telefone, ontem, com o ministro turco da Defesa, Hulusi Akar.

Segundo o Pentágono, militares americanos ficaram sob fogo da artilharia turca nesta sexta-feira na região da cidade de Kobani, no norte sírio.

O ataque "ocorreu a centenas de metros de um ponto fora da zona do mecanismo de segurança e em uma área que os turcos sabem da presença de tropas americanas", disse o comandante Brook DeWalt, acrescentando que não houve feridos.

No Conselho de Segurança da ONU, a Rússia bloqueou um projeto apresentado nesta sexta-feira pelos Estados Unidos solicitando à Turquia que interrompa sua ofensiva militar no norte da Síria, segundo fontes diplomáticas.

De acordo com as fontes, Moscou interrompeu um processo de adoção deste texto, que deveria ter sido aprovado às 19H30 GMT (16H30 de Brasília, que em sua versão inicial se limitava a pedir que Ancara voltasse aos meios diplomáticos, mas que acabou ganhando mais observações contundentes dos estados membros do Conselho de Segurança.

Apesar das "ameaças", o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, garantiu, nesta sexta-feira, que não vai encerrar a operação. "Não importa o que dizem, não vamos parar", frisou, durante um discurso em Istambul, referindo-se aos ataques às Unidades de Proteção do Povo (YPG) no nordeste da Síria.

"Recebemos ameaças à direita e à esquerda, dizendo-nos para parar", declarou.

"Não vamos retroceder. Continuaremos esta luta até que todos os terroristas se movam para o sul do limite de 32 quilômetros da nossa fronteira, que Trump mencionou", insistiu.

Em resposta às críticas europeias, o presidente Erdogan já havia ameaçado enviar para a Europa os milhões de refugiados sírios acolhidos em seu país.

Vizinha de uma Síria em guerra, a Turquia lançou sua operação na quarta-feira, mobilizando forças aéreas e terrestres, contra uma milícia curda síria que ela considera como "um grupo terrorista" e que espera erradicar de sua fronteira.

Vários países manifestaram sua preocupação com os civis, mas também com o destino dos membros do grupo extremista Estado Islâmico (EI) detidos pelas forças curdas que controlam vastas regiões do norte sírio. O medo é de que esses detentos consigam fugir.

Parecendo confirmar estes temores, as autoridades curdas afirmaram que cinco extremistas do EI fugiram de uma prisão perto de uma cidade de maioria curda, Qamichli (nordeste), após os ataques aéreos curdos.

Além disso, um motim explodiu no acampamento de Al-Hol controlado pelos curdos. Neste local, vivem milhares de famílias de indivíduos suspeitos de serem extremistas. O EI assumiu a autoria do atentado em Qamichli, no qual seis pessoas morreram.

- Túneis e trincheiras -

"Há intensos combates (...) sobre várias frentes, principalmente de Tal Abyad a Ras al-Ain [cidades fronteiriças], entre as Forças Democráticas Sírias (FDS) e as tropas turcas e seus aliados locais", segundo o OSDH.

Acostumadas a usar túneis e trincheiras para se defenderem, as FDS lutam para conter o avanço das forças turcas, que ontem assumiram o controle de 11 localidades. Duas delas foram recuperadas pelos curdos, completou a ONG síria.

Praticamente desertas agora, Tal Abyad e Ras al-Ain são as mais atingidas, informa um serviço de imprensa ligado às autoridades curdas locais.

Algumas tribos árabes se uniram às fileiras das forças turcas e lançaram ataques nas linhas curdas, ativando células adormecidas, completou o OSDH.

De acordo com a imprensa turca, Ancara deseja retomar o controle na faixa entre Ras al-Ain e Tal Abyad. O objetivo é afastar de sua fronteira o que considera ser a principal milícia curdo-síria: as YPG, espinha dorsal das FDS e principal ator na derrota do Estado Islâmico.

Com esta ofensiva, a Turquia espera criar uma "zona de segurança", onde possa ser instalada uma parte dos 3,6 milhões de refugiados sírios que vivem em solo turco.

Em Nova York, seguem na ONU discussões sobre um texto americano, que propõe pedir à Turquia para voltar à via diplomática. Vários diplomatas ressaltam que sua adoção depende do apoio russo.

ONGs já alertaram para o novo desastre humanitário na Síria, país em que a guerra já deixou mais de 370 mil mortos desde 2011 e forçou milhões de pessoas a fugirem.

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