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Polícia faz uma patrulha no estado de Michoacán

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Pais e familiares tentavam nesta quarta-feira resgatar alguns dos 458 menores encontrados nesta terça-feira vivendo em condições desumanas e de quase escravidão em um orfanato de Michoacán, oeste do México, onde, segundo as autoridades, também sofriam abusos sexuais.

"Vim resgatar minha filha", declarou visivelmente incomodada Rosalba Karina Contrera, mãe de uma adolescente de 13 anos que vivia no orfanato "La Gran Familia".

Forças federais revistaram o orfanato, que funcionava há 40 anos no município de Zamora, após a denúncia de cinco pessoas de que o estabelecimento retinha crianças à força, segundo Tomás Zerón de Lucio, diretor da agência de investigação criminal do Ministério Público.

Na operação, que teve o apoio do exército, as autoridades encontraram as cinco crianças sequestradas, assim como 138 adultos com idades entre 18 e 40 anos privados de sua liberdade e outros 458 menores de idade - entre eles seis bebês de entre dois meses e três anos - que viviam em condições de abuso e insalubridade.

De acordo com os primeiros depoimentos, Rosa del Carmen Verduzco, diretora e fundadora do estabelecimento, obrigava as crianças a pedir esmola e a dormir no chão entre ratos e insetos.

As crianças também eram vítimas de abusos sexuais e alimentadas com comida estragada, segundo Zerón.

Com a operação, o procurador Jesús Murillo Karam descobriu que existiam ao menos 50 denúncias além das apresentadas pelos cinco pais e que motivaram a busca.

Familiares que foram ao local nesta quarta-feira acusavam Verduzco, que foi detida junto com outros oito funcionários da instituição. Todos estão sendo investigados por maus tratos e agressões sexuais.

Contrera contou que a diretora do local trocava os dias de visitas sem aviso prévio ou impedia que visse sua filha.

As autoridades não explicaram se existiam órfãos entre as crianças, nem como os 138 adultos eram obrigados a permanecer no estabelecimento ou com que objetivo.

Entre os menores de idades havia seis bebês. Segundo os primeiros elementos da investigação, os bebês que nasciam no orfanato eram registrados como filhos de Verduzco, o que não permitia aos pais biológicos decidir sobre o futuro das crianças.

Medo de denunciar

Bertha Saucedo declarou à emissora Foro TV que viveu no abrigo e que, antes de deixá-lo, teve uma filha que foi tomada pela diretora.

"Tiraram minha filha quando ela tinha três meses. Quando completou seis anos, passei a tentar visitá-la e ela (a diretora) nunca me deixava, dizendo que se eu não pagasse nunca entregaria a minha filha que tinha síndrome de Down", declarou.

A mãe afirmou que nunca apresentou queixa por medo "de que a maltratassem, ou deixassem ela sem comer".

Uma vítima afirmou que, ao completar 18 anos, pediu a Verduzco para deixar o local, mas que a diretora negou e a obrigou a permanecer por mais 13 anos no orfanato, informou Zerón.

"Esta vítima teve duas filhas e não foi autorizada a registrar as crianças, que estavam privadas da liberdade. Ela chegou a oferecer 10.000 pesos (753 dólares) à diretora do local pela libertação", disse o investigador.

O governador de Michoacán, Salvador Jara, afirmou que estava consternado com a descoberta. Ele disse que as denúncias originais sobre as cinco crianças foram apresentadas há mais de um ano às autoridades.

Já Enrique Krauze, um reconhecido historiador, escritor e ensaísta mexicano, defendeu a diretora do abrigo.

"É inadmissível o assédio do governo a Rosa Verduzco em Michoacan. Uma vida dedicada ao resgate de órfãos. Haverá um protesto internacional", disse o intelectual em sua conta no Twitter.

"Rosa Verduzco em 60 anos adotou milhares de crianças. Caso único na história mexicana. Peço ao governo respeito a sua vida e à lei", disse Krause, diretor da revista Letras Libres.

AFP