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Manifestantes de Mianmar lutarão 'até o fim', apesar da repressão militar

Bloqueio de uma ponte durante manifestação contra o golpe de Estado em Yangon afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 17. fevereiro 2021 - 13:39
(AFP)

Dezenas de milhares de manifestantes voltaram às ruas nesta quarta-feira (17) em Mianmar, afirmando que lutarão "até o fim" contra o golpe de Estado, apesar da repressão da junta.

Em Yangon, os manifestantes se reuniram perto do famoso pagode de Sule, no centro da capital econômica.

Em uma tentativa de impedir o envio das forças de segurança, alguns bloquearam várias ruas com carros e caminhões, alegando que estavam com defeito.

Outros marcharam a pé, ou em veículos de duas rodas com cartazes que diziam "Luta pela democracia!", "Rejeite o golpe de Estado!" e "Respeite a lei!".

"Devemos lutar até o fim", disse à AFP um birmanês de 21 anos.

"Aqui é onde lutamos por nossas vidas durante a repressão de 1988", lembra Nilar Thein, uma estudante da época. "Não podemos deixar que a geração mais jovem enfrente as mesmas atrocidades", afirma. Cerca de 3.000 pessoas perderam a vida durante este levante popular.

Não houve registros de incidentes, ou de presença militar significativa.

O relator da ONU Tom Andrews disse temer, porém, uma retomada da violência, depois de receber informações sobre o envio de tropas "das regiões periféricas para Yangon".

- "Apavorado" -

"No passado, esses movimentos de tropas precediam as matanças, desaparecimentos e detenções em massa", alertou Andrews, que disse estar "apavorado".

Em Naipyidó, capital administrativa onde a ex-chefe do governo civil Aung San Suu Kyi se encontra sob prisão domiciliar, funcionários, engenheiros e estudantes protestaram em grande número aos gritos de "Nos ajudem a salvar Mianmar!". Outras manifestações também aconteceram em todo país.

Após o golpe de Estado em 1o de fevereiro que encerrou uma frágil transição democrática de dez anos, os militares reforçaram a repressão com a proibição de reuniões, cortes de Internet, prisões noturnas e reforço do arsenal legislativo.

O medo das represálias está na lembrança de todos no país, que viveu sob o jugo dos militares durante quase 50 anos desde sua independência em 1948.

Várias manifestações geraram fortes tensões nos últimos dias.

A polícia disparou gás lacrimogêneo e balas de borracha em várias ocasiões, deixando muitos feridos.

Uma jovem de 20 anos que recebeu um disparo na cabeça - provavelmente com balas reais - encontra-se em estado de morte cerebral.

Um policial morreu na terça-feira, devido aos ferimentos sofridos durante uma manifestação em Mandalay (centro), informou a junta, que chama esses protestos de "violentos" e ameaça várias vezes com "sanções".

Apesar disso, as convocações para a desobediência civil não param: médicos, professores, profissionais aéreos, trabalhadores ferroviários estão em greve contra o golpe. Os grevistas são um alvo especial das detenções.

- Centenas de detenções -

Mais de 450 pessoas foram detidas desde o golpe, segundo uma lista de detenções confirmadas por uma ONG de assistência aos presos políticos. Delas, 417 continuam presas. Outros relatórios não confirmados mencionam mais detenções.

Aung San Suu Kyi, de 75 anos, já processada por infringir uma norma comercial ao importar "ilegalmente" walkie-talkies, enfrenta uma nova acusação por violar "a lei sobre a gestão de desastres naturais", disse seu advogado, que ainda não conseguiu entrar em contato com ela.

"Estamos nos preparando para o pior (...), neste país pode acontecer qualquer coisa", disse ele à AFP nesta quarta-feira.

A vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 se encontra "em bom estado de saúde", segundo a junta, que a mantém sob prisão domiciliar pela sua segurança.

As conexões de Internet foram praticamente todas cortadas na madrugada de terça para quarta-feira, antes de serem restauradas pela manhã.

A junta também reforçou o arsenal repressivo: as buscas sem mandado e as detenções por um curto período sem a autorização de um juiz agora são permitidas. Além disso, preparam uma lei muito restritiva sobre cibersegurança.

Os generais ignoram as condenações internacionais e as sanções anunciadas por Washington. Contam com dois apoios importantes na ONU, China e Rússia, para quem a crise atual constitui "um assunto interno" birmanês.

Pequim afirmou que não foi "informada com antecedência" sobre o golpe, enquanto os manifestantes a acusam de apoiar os militares.

A situação atual "de fato não é o que a China quer ver", disse o embaixador chinês em Yangon, Chen Hai.

O líder da Junta, Min Aung Hlaing, justificou o golpe denunciando fraude nas legislativas de novembro, vencidas pelo partido de Aung San Suu Kyi, a Liga Nacional para a Democracia, e prometeu novas eleições.

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