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Maria do Rosário teme aumento da violência contra as mulheres com Bolsonaro eleito

A deputada Maria do Rosário concede entrevista à AFP na Câmara dos Deputados afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 18. outubro 2018 - 16:21
(AFP)

No 'Salão Verde' da Câmara dos Deputados, onde em novembro de 2003, Jair Bolsonaro disse que ela não merecia ser estuprada, a deputada Maria do Rosário alerta que a chegada do candidato de extrema direita ao poder poderá provocar um aumento da violência contra as mulheres.

"Com o que ocorre conosco como mulheres, o que ocorreu comigo (...) a nossa preocupação é que se legitime mais violência", declarou a deputada em entrevista à AFP.

"O Brasil é campeão de violência contra mulheres", alertou.

Segundo a ONG Fórum Brasileiro para a Segurança Pública, em 2017 foram contabilizados 4.473 assassinatos de mulheres e 60.018 estupros, uma alta de 6% e 8% em relação a 2016.

"Imagine se essa violência fosse promovida institucionalmente", advertiu Maria do Rosário.

O discurso de Bolsonaro "se baseia em que é possível enfrentar a violência com mais violência, dando uma arma para cada cidadão. Estas armas, sabemos que serão apontadas primeiro para as mulheres, para os negros, para os gays, para as lésbicas", acrescentou.

Há 15 anos, o deputado Bolsonaro e a legisladora do Partido dos Trabalhadores (PT) travaram uma agressiva discussão gravada pelas câmeras em Brasília.

Aconteceu à margem do debate de um projeto de lei para punir menores infratores depois de uma brutal agressão de adolescentes contra um casal.

Bolsonaro, que ganhou reputação com comentários misóginos e homofóbicos e por sua defesa da ditadura militar e da tortura, alfinetou: "Nunca te estupraria, porque você não merece".

O ex-capitão do Exército alegou posteriormente que, nessa discussão, a deputada o chamou de "estuprador".

Mas em 2014, reincidiu e disse que Rosario "não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece".

Seus insultos chegaram à Justiça, em recursos interpostos pela própria deputada e pelo Ministério Público, e depois de condenado em primeira instância aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).

Durante a campanha, Bolsonaro anunciou que as agressões contra as mulheres seriam castigadas com maior saveridade;

"Os crimes contra as mulheres têm que ser castigados, têm que ter penas mais longas (...), nossas grandes mulheres têm que ser respeitadas e bem protegidas", escreveu no Twitter.

Em 2013, apresentou um projeto de lei que autorizaria a castração química de estupradores.

- "Defensor da barbárie" -

Desde a discussão, muito mudou para ambos os lados.

Bolsonaro, agora com 63 anos, parece estar muito perto de se tornar - segundo as pesquisas - o próximo presidente do Brasil no segundo turno de 28 de outubro, contra Fernando Haddad, do PT.

A deputada de 51 anos, ministra dos Direitos Humanos entre 2011 e 2014, acaba de ser reeleita e seu partido, vencedor das últimas quatro eleições, está na oposição desde 2016, quando a presidente Dilma Rousseff foi destituída pelo Congresso.

Além disso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder histórico do PT, está preso por corrupção.

Durante a polarizada campanha eleitoral, os vídeos com os comentários depreciativos de Bolsonaro para Rosario e outras mulheres e minorias viralizaram nas redes sociais e foram utilizados pelo PT e outras forças progressistas.

Mas nem isso, nem as grandes manifestações de mulheres, impediram Bolsonaro de vencer o primeiro turno em 7 de outubro e que a última pesquisa Ibope publicada na segunda-feira desse 59% da intenções de votos, contra 41% para o candidato do PT.

E que entre o eleitorado feminino, que representa 52% do eleitorado, tenha 46% das intenções de voto.

Com um pequeno partido, o Partido Social Liberal (PSL) e uma estratégia inteligente nas redes sociais, Bolsonaro conseguiu capitalizar o descontentamento social e fazer grande parte do eleitorado associar o PT aos enormes escândalos de corrupção e má gestão econômica.

A própria Maria do Rosário é investigada no STF por supostamente ter recebido, para sua campanha eleitoral de 2010, 150.000 reais não declarados da construtora Odebrecht.

Apesar de tudo, Maria do Rosario continua confiando na vitória de Haddad. E afirma que o segundo turno é antes de tudo uma batalha entre "os defensores da dignidade e os da imoralidade".

"O PT, como partido, tem integrantes que erraram. Todos os partidos tem integrantes que erraram. Mas eu vou lhe dizer uma coisa: o PT nunca foi responsável pela tortura, pela morte e pela destruição de qualquer brasileiro ou brasileira", afirmou.

"Se Haddad vencer a eleição, teremos problemas no dia seguinte (...) teremos que empreender uma educação em matéria de direitos Humanos, contra o ódio criado nas redes sociais", afirmou.

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