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"Rei Kawakubo/Comme des Garçons: Art of the In-Between" no Metropolitan Museum of Art em Nova York

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Protuberâncias, armações, assimetria: a moda revolucionária e conceitual da estilista japonesa Rei Kawakubo, fundadora da "Comme des Garçons", está em exibição no Museu Metropolitan de Nova York, que presta homenagem a seu quase meio século de trabalho.

Ao reunir cerca de 140 peças para a exposição "Art of the In-Between" (Arte do entremeio), o Met procura dar uma ideia deste universo único sobre o qual Kawakubo disse um dia: "Para que algo seja belo, não precisa ser bonito".

Desde 1969, esta estilista esbelta e graciosa rejeita "os valores estabelecidos, as convenções e o que é geralmente aceito como a norma", segundo as notas da exposição do Met.

O mundo de "Comme des Garçons" é o da assimetria, do desequilíbrio, da onipresença da forma, onde a vestimenta atrai todos os olhares.

Armações, torções, franjas, nós, babados, pregas; Rei Kawakubo utiliza múltiplos recursos para transformar a silhueta das mulheres, às vezes afastando-se muito dos cânones da moda.

Para Thomas Campbell, diretor do Met, "suas criações muitas vezes se assemelham a esculturas".

Mulher de poucas palavras, quase inacessível para a imprensa, a estilista de 74 anos raramente se expressa em público e se nega a analisar suas criações, alegando "falta de intenção".

Presente na segunda-feira na pré-estreia da exposição, que será aberta ao público nesta quinta-feira e terminará em 4 de setembro, Kawakubo preferiu não falar com os jornalistas.

- Espírito punk -

Apesar de estar sob a liderança do conservador Andrew Bolton, o Costume Institute, espaço de moda do Met, elegeu esta diretriz do entremeio, que corresponde à vontade de Kawakubo de encontrar um espaço entre as definições e escapar das convenções.

"Vestimentas/Não vestimentas", "Abstração/Representação", "Vida/Perda" são alguns dos títulos das nove seções articuladas em torno ao tema do entremeio.

Em "Design/ Não Design", o Met reuniu uma coleção de formas esculturais e reforçadas um tanto semelhantes a um origami em tecido.

Para "Ausências/Presenças", vestidos vermelhos parecem enfaixar um corpo irreconhecível, cujas excrescências produzem um efeito perturbador de deformidade.

Rei Kawakubo confunde as pistas e apaga os pontos de referência até propor outra realidade, uma perspectiva alternativa que se afasta da visão objetiva do corpo da mulher.

"Temporada após temporada, coleção após coleção, Kawakubo muda nosso olhar atualizando a noção de beleza", disse Andrew Bolton na apresentação da exposição.

Seu primeiro desfile em Paris, em 1981, radicalmente no contrapé do glamour tão presente na época, foi recebido com frieza.

Em uma entrevista com a revista "System", Kawakubo disse adorar "o espírito punk" por este estar "contra a corrente", e considerou então que essa palavra, nascida nos anos 1970, poderia qualificar todas as suas coleções.

Para que a atenção se volte unicamente às vestimentas, o Met elegeu uma decoração toda branca, com paredes arredondadas que às vezes escondem e às vezes revelam. Outra originalidade foi colocar algumas peças no alto, de modo que só podem ser observadas levantando a cabeça.

Em mais de 70 anos de existência, o Costume Institute só havia dedicado uma exposição a um estilista vivo em uma ocasião - a Yves Saint-Laurent, em 1983.

"Para mim, não havia nenhuma dúvida de que a moda de Rei tinha seu lugar em um museu de arte", afirmou Bolton. A obra da estilista "torna supérfluo o debate sobre a separação entre a arte e a moda", concluiu.

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