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A artista mexicana Adela, de 87 anos, em Xochimilco, em 26 de setembro de 2017

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Os ferimentos dolorosos sofridos durante 32 horas sob os escombros não minam a energia transbordante de Adela, uma atriz excêntrica de 87 anos que pede maquiagem, câmeras e ação para contar, do hospital, seu reaparecimento inesperado após o sismo no México.

"Estou viva e atenta", diz sorrindo à AFP Adela Peralta, conectada a uma série de aparelhos médicos que tratam suas duas fraturas na coluna e lesões no esôfago.

Antes de relatar seu surgimento entre as ruínas quando os socorristas já a davam como morta, a idosa pede que passem batom em seus lábios e que a adornem com um glamouroso chapéu e uma estola atigrada.

"Luz, câmera, ação!", exclama com humor esta senhora multifacetada antes de responder as perguntas com entusiasmo.

Ao longo da vida, Adela foi vedete, humorista, mágica, mãe de três filhos, campeã mundial de pesca e feminista comprometida. No México, é a palhacinha mais veterana graças a Tiki Tiki, a personagem de nariz vermelho com a qual faz as crianças rirem.

Agora, depois da sua resistência sob os escombros deixados pelo terremoto de 7,1 graus que sacudiu o México em 19 de setembro, Adela possui um novo título: "Sou um milagre de Deus", assegura.

O edifício em que vivia, no extremo sul da Cidade do México, ficou intacto após o devastador sismo de 8,1 graus em 1985, que deixou mais de 10.000 mortos no país.

Mas o tremor da semana passada - que até agora deixou mais de 330 mortos - o reduziu a escombros, deixando seu apartamento térreo enterrado sob uma montanha de poeira.

Sair com vida de lá foi uma maratona de resistência contra o tempo, o ceticismo e a dor.

- "Bibidi bobidi bu!" -

"Quando começou a tremer, na minha frente tinha um espelho do tamanho de toda a parede, e se desprendeu uma pedra de um metro e meio, e a porta da cozinha tapou a entrada do apartamento. A luz se apagou e eu fiquei apoiada em uma posição muito incômoda, não consegui sentar bem em nenhum momento durante as 32 horas", relata Adela.

Durante a espera interminável, teve alucinações com filhotes e crianças brincando. Também estava preocupada com a sua família.

"Lembrava dos meus filhos, os três, e pensava: sobreviverão? Rezava e rezava", conta.

Várias pessoas foram resgatadas do edifício de Adela. No início saíam com vida, mas à medida que o tempo passava começaram a sair só cadáveres, entre eles o de uma avó abraçada a sua neta, conta Sara Peralta, filha de Adela.

Para suportar a espera angustiante em frente às ruínas, Sara pegou a varinha mágica de sua mãe, esperando que aparecesse.

"Bibidi bobidi bu!, que Tiki Tiki apareça aqui", clamava apontando a varinha para os escombros.

"Achavam que eu estava tendo um ataque de histeria", conta Sara rindo.

Trinta horas depois do terremoto, os socorristas já não registravam sinais de vida e só esperavam encontrar o cadáver de Adela, a última pessoa que restava sob os escombros.

A missão de recuperar o corpo parecia tão impossível que muitos sugeriram retirar as equipes de resgate e intervir com maquinaria pesada para remover as ruínas rapidamente.

- Um aplauso "especial" -

De repente, entre a escuridão, Adela escutou uma voz que lhe disse: "Senhora, não saia daqui, vamos retirá-la".

"E eu pensei: aonde poderia ir, se não consigo nem ficar de pé?", diz Adela.

Lá fora, o silêncio expectante que rodeava a cena foi interrompido por gritos.

"Está viva, está viva!", diziam eufóricos os socorristas ao ver a cabeça branca sair por um estreito orifício entre pedras e varas de metal. Um estremecedor coro de ovações e aplausos irrompeu em resposta.

O momento em que encontraram a idosa ficou imortalizado em um vídeo feito em 20 de setembro por um dos bombeiros que participou do resgate.

"Senti o aplauso rotundo e de alegria de todos quando souberam que eu estava viva", lembra Adela, que adora estar em frente às câmeras e está acostumada às ovações.

Mas esse aplauso foi "totalmente especial, foi um aplauso divino, totalmente maravilhoso para o meu coração", diz com a voz entrecortada.

Os planos de Adela para quando sair do hospital?

"Viver, viver, viver!".

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AFP