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Imigrantes curdos esperam em frente a um ginásio após incêndio no acampamento Grande-Synthe, em 11 de abril de 2017

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Depois de uma noite longa e agitada, a incerteza reinava entre as centenas de migrantes que ficaram sem teto após um violento incêndio que destruiu totalmente o acampamento de Grande-Synthe, no norte da França.

Apenas 70 cabanas de madeira permaneciam de pé das 300 que existiam no acampamento, aberto em março de 2016. Os bombeiros ainda trabalhavam para apagar os últimos focos de incêndio.

O fogo teria começado após uma briga às 18H45 locais entre quase 200 migrantes que obrigou uma intervenção da polícia. A disputa aconteceu entre afegãos e curdos.

Os confrontos foram interrompidos, mas recomeçaram por volta de 21H30, desta vez com quase 600 migrantes.

As autoridades anunciaram a ordem para evacuar o acampamento e decretaram oficialmente o fechamento do local.

Por volta das 09H00 da manhã, um grupo de seis afegãos chega ao que resta deste acampamento onde viviam 1.500 migrantes e refugiados. Colunas de fumaça continuavam saindo das cabanas de madeira de foram devoradas pelas chamas.

"Querem recuperar suas bolsas, seus documentos de identidade", explica Wajid, 19 anos, um tradutor que ia começar a trabalhar no local na terça-feira.

"Preciso da minha carteira de identidade, se perdê-la terei que começar tudo do zero", diz desesperado o afegão Emal.

Ele conta como uma briga entre migrantes afegãos e curdos, na véspera, derivou em um incêndio.

"Os afegãos estavam jogando futebol, e a bola caiu em cima de um curdo, que insultou o povo afegão. Os afegãos tentaram agarrá-lo mas ele fugiu", disse.

"Depois, voltou com mais pessoas. Dissemos a ele que queríamos conversar e pedir desculpas, mas os curdos vieram com pistolas e facas", afirma este afegão.

O número de migrantes e refugiados em Grande-Synthe aumentou consideravelmente desde a destruição, em outubro passado, do que restava de outro grande acampamento de migrantes a cerca de 40 km dali, conhecido como a Selva de Calais.

"Para mim, era normal que os curdos se sentissem em casa, era o acampamento deles, nós tínhamos Calais. Mas como Calais já não existe...", lamenta.

O pequeno grupo de afegãos vai embora minutos depois, sem ter conseguido recuperar seus pertences. A pé, em fila indiana, pegam a via que leva ao centro da cidade de Grande-Synthe, como muitos outros migrantes.

- Migrantes exaustos -

A alguns quilômetros dali, fica a sala Victor Hugo, um dos três ginásios que foram habilitados para abrigar uma parte dos refugiados.

Há apenas 500 lugares, e os demais passaram a noite à intempérie, afirma inquieto François Guennoc, vice-presidente do Albergue de Migrantes, associação que reparte comida neste acampamento próximo ao porto de Dunkerque.

Dentro deste ginásio reservado aos curdos, para os quais o exílio forçado foi a única opção, eles tentam reconstruir suas vidas, uma vez mais, com o pouco que lhes resta.

Homens e mulheres visivelmente exaustos descansam em camas dobráveis instaladas de emergência. Seus filhos jogam bola ou andam em triciclos. Vários adolescentes fazem fila em frente aos banheiros da entrada para lavar o rosto nas pias.

Johat, um dos poucos afegãos presentes - tolerado, talvez, porque tem 15 anos -, está angustiado. "Me vi em plena briga, consegui escapar mas desde então não soube nada do meu amigo, que ficou ferido", conta.

"É um caos. Alguns não tiveram onde dormir e vagam pela cidade. Muitos têm medo de não encontrar suas famílias", aponta Patrick, um voluntário.

Karwan, pai de cinco filhos, está furioso por não poder entrar no ginásio porque é paquistanês. "Para mim é muito estranho ter que estar aqui esperando, estávamos bem no acampamento".

Na segunda-feira à noite, Karwan se ausentou do acampamento para comprar tabaco. Quando ouviu o que aconteceu, voltou correndo para proteger sua família. Sua cabana estava bem em frente ao lugar onde começaram os primeiros confrontos.

"Tinha a minha filha nos meus braços, mas caí e levei vários golpes. Mas não tem problema, enquanto meus filhos estejam bem...", diz. O que aconteceu, aponta, o deixou ainda mais convencido da urgência de ir para o Reino Unido.

Durante mais de uma década, a costa norte da França atraiu milhares de refugiados e migrantes que tentam chegar ao Reino Unido. Eles se colocam perto da autopista para tentar entrar em caminhões que se dirijam ao país vizinho ou pagam traficantes para que os levem ao outro lado do Canal da Mancha.

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