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Migrantes relatam deportações enganosas dos EUA ao México

Grupo de migrantes centro-americanos recém-chegados do Texas em fila na ponte internacional Paso del Norte para ser deportados a Ciudad Juárez, México, 11 de março de 2021 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 19. março 2021 - 01:02
(AFP)

O sonho de Dirlan Hernández de emigrar com o filho aos Estados Unidos se desfez. Após uma longa travessia de Honduras, conseguiu cruzar a fronteira, mas ele conta que foi detido e deportado para o México com manobras enganosas.

Casos como este se multiplicam na mexicana Ciudad Juárez (norte), para onde foram devolvidos mais de 300 migrantes hondurenhos sem documentos só esta semana, apesar da flexibilização de algumas políticas do governo do presidente americano, Joe Biden.

Após passar dois dias detido em McAllen, no Texas, junto com o filho de três anos, um agente americano disse a Drian, de 30 anos, que ele seria trasladado para Miami.

Horas depois, percebeu que o local onde os deixaram, a mais de 1.000 km de McAllen, não era a tropical Flórida, mas a desértica Chihuahua, no México.

"Quando vi a bandeira do México e olhei para onde dizia Ciudad Juárez, me dei conta. Não achei que fossem nos jogar aqui como se não fosse nada", diz o homem, que caiu em prantos na ponte fronteiriça.

Os migrantes sem documentos são expulsos diariamente segundo a norma "título 42", instaurada em 20 de março de 2020 pelo então presidente Donald Trump para prevenir a propagação da covid-19 e que permanece vigente.

Como consequência, os albergues em Ciudad Juárez estão cheios. "Tem dois dias, duas noites que não dou banho no meu filho e não há nada", lamenta Dirlan.

- Zona cinzenta -

Marisa Limón, da Hope Border Institute, ONG americana pró-migrantes, lamenta que muitos continuem sendo enganados por traficantes de pessoas, que lhes dizem que a fronteira está aberta para todos.

Atualmente, os Estados Unidos recebem estrangeiros registrados nos desativados Protocolos de Proteção aos Migrantes (MPP, na sigla em inglês), política de Trump que forçava os solicitantes de asilo a esperarem a resposta em território mexicano.

"Agorinha tudo está cinzento, estamos dando as boas-vindas (nos Estados Unidos) às pessoas que estão saindo do MPP e, ao mesmo tempo, estamos recebendo (no México) as pessoas expulsas sob o Título 42", diz Limón.

Esta zona cinzenta tem matizes, que variam de acordo com o perfil do migrante.

Em Brownsville, cidade fronteiriça com a mexicana Matamoros (nordeste) e a mais de 1.300 km de Juárez, a Patrulha Fronteiriça distingue entre migrantes adultos e solteiros, que são rapidamente devolvidos, e mães com filhos ou menores desacompanhados.

Estes últimos são detidos, mas depois auxiliados a dar entrada em asilos ou atenção especial. As crianças desacompanhadas são ajudadas a reencontrar as famílias e as mães são liberadas com documentos para circular legalmente, constatou a AFP.

- Desconcerto e esperança -

Mas esta política está custando caro a Biden, acusado pela oposição republicana de provocar uma "crise" na fronteira. Só em fevereiro, foram capturadas 100.000 pessoas que tentaram entrar no país.

A problemática crescente forçou esta semana o presidente americano a pedir diretamente aos migrantes que "não venham", durante uma entrevista à ABC News.

"É ilegal negar o acesso ao asilo para estas pessoas", insiste Limón, preocupada com os que continuam chegando para tentar a sorte.

No México, o estatal Centro de Atenção Integral para Migrantes (CAIM) ajuda os deportados com comida, água e assessoria, embora não possa lhes oferecer abrigo, pois os 18 albergues de Ciudad Juárez estão cheios.

"Vemos muito desconcerto, muita tristeza porque só depois que retornam percebem que foram devolvidos (ao México)", explica Enrique Valenzuela, coordenador do CAIM.

E enquanto alguns voltam abatidos, outros continuam chegando com esperança.

"Estamos recebendo muitas pessoas da América Central, muitas famílias com crianças pequenas (...), estamos falando de uma população muito vulnerável", disse Valenzuela.

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