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O vice-presidente americano, Mike Pence, em Munique, no dia 17 de fevereiro de 2017

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O vice-presidente dos Estados Unidos Mike Pence chegará a Seul neste domingo, em meio a tensões políticas por eventuais enfrentamentos militares entre Estados Unidos e Coreia do Norte.

Trata-se da primeira visita de Pence à Coreia do Sul. A viagem que também inclui escalas no Japão, na Indonésia e na Austrália foi concebida há meses, mas se concretiza em um momento de forte tensionamento com Pyongyang.

Na última semana, projeções de imagens geoespaciais indicaram que a Coreia do Norte poderia estar preparando um novo teste nuclear para este sábado, no qual foi comemorado o 105º aniversário de nascimento do fundador do país, Kim Il-Sung.

O presidente Donald Trump alertou nesta semana que os Estados Unidos se "ocupariam" do caso norte-coreano na hora certa, e altos funcionários de seu governo confirmaram que foi considerada a possibilidade de ações militares contra Pyongyang. A Coreia do Norte, por sua vez, disse estar "preparada" para uma guerra nuclear com os Estados Unidos.

Esse tema será o ponto central das discussões que Pence manterá com o primeiro-ministro provisório da Coreia do Sul, Hwang Kyo-Ahn, na segunda-feira, e em Tóquio, durante as negociações com o primeiro-ministro Shinzo Abe.

Japão e Coreia do Sul estão na linha de fogo e querem que Washington se movimente com cautela, evitando ações militares que possam desencadear uma conflagração maior.

Além de temas mais urgentes de segurança, Pence tentará tranquilizar os aliados de Washington sobre a retórica protecionista de Trump, lançando a mensagem de que seu país respeita seus compromissos econômicos e de segurança com seus aliados e parceiros, explicou um assessor em política externa da Casa Branca.

-Laços pessoais -

O vice-presidente tem ainda laços muito pessoas com a Coreia do Sul, que procurará destacar durante sua visita, segundo analistas.

Aproximadamente 64 anos atrás, o pai de Pence, o tenente Edward Price, foi homenageado com a estrela de bronze por seu desempenho na guerra da Coreia.

Em Seul, Pence tentará não entrar em temas relacionados com a tumultuada política nacional da Coreia do Sul, que terá eleições no mês que vem. Ele, inclusive, não se reunirá com líderes da oposição, que podem chegar ao poder.

Washington está preocupado, de qualquer forma, com a possibilidade de o novo governo sul-coreano desacelerar o andamento do THAAD, um sistema projetado para derrubar mísseis provenientes da Coreia do Norte ou de qualquer outro lugar.

Os Estados Unidos têm quase 30.000 soldados na Coreia do Sul e conta com esse sistema.

O tema tem sido complicado pela furiosa oposição da China à perspectiva de haver um sistema de radares de alta tecnologia tão perto de seu território, podendo neutralizar parcialmente sua capacidade de dissuasão nuclear.

- Parceiro pouco confiável -

Pequim respondeu com pressões diplomáticas e com coerção econômica, o que estremeceu suas relações com Seul.

Pence, que em público parece ter um discurso muito diferente ao de Trump, terá dificuldades para convencer seu aliado sul-coreano de que os Estados Unidos são um parceiro confiável.

Trump se queixa repetidamente de que seu país carrega nas costas os gastos de defesa de seus parceiros e algumas consequências de tratados bilaterais e regionais assinados.

No ano que vem chegará ao fim o acordo entre Washington e Seul sobre quem arca com o custo da presença de militares americanos no país asiático. O governo de Trump poderá pedir ao sul-coreano que assuma uma maior proporção desses gastos.

Trump também pediu uma revisão de todos os acordos bilaterais de comércio assinados por seu país, incluindo o assinado há cinco anos atrás com a Coreia do Sul, chamado KORUS.

Para o presidente republicano, os Estados Unidos devem ter como prioridade a redução dos altos déficit comerciais com outros países.

Wendy Cuttler, que ajudou a negociar o KORUS, disse nesta semana, durante um evento da Korea Society, que não acha "correto julgar o sucesso de um acordo comercial pelo déficit".

Segundo Cuttler, o déficit tem a ver com o constante crescimento econômico dos Estados Unidos, que leva o país a aumentar suas importações, em especial as provenientes da Coreia do Sul.

Outros analistas ressaltam os investimentos de bilhões de dólares realizados pela Coreia do Sul nos Estados Unidos nos últimos anos, que criaram cerca de 50.000 postos de trabalho no país norte-americano.

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