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Pessoas participam de manifestação para exigir a saída do presidente guatemalteco Otto Pérez, na Cidade da Guatemala, no dia 27 de agosto de 2015

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Aos gritos de "Renuncia já!", milhares de pessoas, lideradas por universitários, marcharam nesta quinta-feira na capital da Guatemala para exigir a saída do presidente Otto Pérez, cujo governo se encontra cada vez mais debilitado e isolado devido a seu suposto envolvimento em fraudes na alfândega.

"O presidente deve renunciar diante do pedido do povo", disse à AFP Miriam Flores, professora da estatal Universidade de San Carlos (USAC), entre o ensurdecedor ruído de vuvuzelas e bandas musicais, misturado ao estouro de fogos de artifício.

"Otto, a prisão te espera", "A corrupção está tirando nossas vidas", "Otto ladrão", diziam alguns dos cartazes que os manifestantes levavam durante a marcha que saiu da sede central da USAC, na periferia sul da capital, até o centro histórico, onde se unirá aos protestos de outros manifestantes que repudiam Pérez.

"Esta é uma marcha histórica, o presidente é um covarde e já não representa a unidade nacional", declarou o estudante Iván Castillo, um dos milhares de indignados que se uniram à marcha.

Em entrevista à Rádio Sonora nesta quinta-feira, Pérez garantiu que não vai renunciar: seguirei à frente do nosso país, não vou fugir".

No domingo passado, Pérez já havia manifestado sua decisão de permanecer no cargo, em mensagem em rede nacional de rádio e TV.

O presidente foi relacionado na última sexta-feira a uma rede criminosa conhecida como "La Línea", que cobrava propina de empresários para burlar o pagamento de impostos alfandegários.

A fraude foi revelada no dia 16 de abril pela Procuradoria e a Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG), uma organização ligada à ONU.

Segundo a Procuradoria, Peréz é um dos líderes da quadrilha que montou o esquema junto da ex-vice-presidente Roxana Baldetti, que renunciou ao cargo e se encontra em prisão preventiva em um quartel militar da capital, de onde será transferida para uma prisão comum para mulheres.

Ao pedido das ruas a favor da renúncia de Pérez se somaram nas últimas horas a Procuradoria Geral da Nação e a Controladoria Geral de Contas. Antes, a cúpula empresarial havia pedido a demissão do presidente.

Enquanto as manifestações aconteciam na capital, outros grupos de manifestantes optaram por bloquear ao menos 10 rodovias no oeste e no norte do país.

Aos protestos se somaram várias empresas que, com o slogan de "greve nacional" contra a corrupção, optaram por fechar seus negócios, inclusive as redes transnacionais de fast food McDonald's e Domino's.

Congresso cogita suspender imunidade

Com tom enérgico e negando sua participação no esquema de corrupção, Pérez assegurou no domingo em uma mensagem à população que não renunciará ao cargo e que "dará a cara" para enfrentar a justiça, embora tenha passado cinco dias sem aparecer em público.

"Digo-lhes que não renunciarei e que com toda integridade enfrentarei e me sujeitarei aos processos da lei", afirmou Pérez em uma gravação transmitida por algumas estações de rádio e canais de televisão.

Diante da postura do presidente, a Procuradoria Geral, entidade que atua como representante legal do Estado, recomendou nesta quarta-feira a Pérez que renuncie para evitar que o país entre em um período de instabilidade política pelo descontentamento popular.

A PGN "recomenda ao senhor presidente constitucional da República da Guatemala apresentar sua renúncia ao cargo a fim de evitar a ingovernabilidade que traz como consequência a instabilidade da Nação", afirmou em um comunicado a instituição.

A Controladoria Geral de Contas da Guatemala (CGCG), entidade fiscalizadora dos gastos públicos, se somou à petição, ao afirmar que "para manter a paz social" e evitar "consequências insuspeitas", o presidente deve renunciar ao cargo.

Com sua ex-vice-presidente em prisão preventiva, como parte da investigação pela fraude, Pérez se encontra em uma encruzilhada legal depois que a Suprema Corte de Justiça aceitou iniciar, por pedido da Procuradoria e da Controladoria, o trâmite parlamentar para tirar-lhe a imunidade (um procedimento que na Guatemala denomina-se 'antejuicio') e assim poder submetê-lo à justiça.

O Congresso da Guatemala integrou nesta quinta-feira uma comissão investigadora, que será a encarregada em analisar se retira ou não a imunidade do presidente.

O presidente do Congresso, Luis Rabbé, comentou que os cinco deputados que integram a comissão foram selecionados por sorteio realizado em plenário durante uma sessão ordinária.

Rabbé explicou que os deputados que integram a comissão são os governistas Gloria Sánchez e Mario Linares, que a preside, e os opositores Jorge Barrios, Sergio Celiz e Nineth Montenegro.

Agora, a comissão investigadora tem até 60 dias para analisar o expediente e apresentar um informe no qual recomendará se é ou não conveniente tirar a imunidade de Pérez.

Em janeiro passado, o mesmo Congresso recusou-se a tirar a imunidade do presidente, em uma ação promovida pelo deputado indígena opositor, Amílcar Pop, pelos mesmos crimes, quando o governante não tinha sido vinculado oficialmente à máfia da fraude fiscal.

Em meio à crise, autoridades migratórias anunciaram a saída para o Panamá dos ex-ministros da Defesa, Manuel López, e do Interior, Maurício López, este último considerado um dos principais colaboradores de Pérez, o que despertou suspeitas de uma possível fuga para evitar processos judiciais.

Nenhum dos dois enfrenta acusações na justiça e por este motivo não foram impedidos de deixar o país.

AFP