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Militar reformado admite crimes durante ditadura do Uruguai

Alba González (E) e Elena Zaffaroni, integrantes da organização uruguaia Madres y Familiares de Detenidos Desaparecidos, em uma coletiva de imprensa em Montevidéu, em 28 de agosto de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 28. agosto 2020 - 17:49
(AFP)

Um coronel preso por crimes na ditadura do Uruguai (1973-85) admitiu ter matado e torturado e confirmou um voo clandestino com prisioneiros na Argentina que estavam desaparecidos, segundo documentos oficiais divulgados nesta sexta-feira (28).

"Tive que matar e matei e não me arrependo. Tive que torturar e torturei", disse o coronel reformado Gilberto Vázquez em um Tribunal de Honra do Exército em 2006 e cujos processos foram revelados hoje.

"Perco muitas noites de sono lembrando dos caras que quebrei a pauladas, mas não me arrependo", acrescentou Vázquez, condenado em 2006 pelo homicídio de 28 uruguaios capturados em 1976 na Argentina.

"Nós executamos, não assassinamos, são coisas muito diferentes. Nós não torturamos, nós pressionamos porque não havia outra escolha", disse Vázquez, de 75 anos. "Não tinha outra forma de combater e tenho orgulho do que fiz", afirmou.

O coronel aposentado compareceu diante do Tribunal de Honra Militar em 2006, depois de escapar de um hospital militar após fingir uma doença para sair do quartel onde estava preso. Ele estava à espera de uma possível extradição para a Argentina para ser julgado pelos crimes na ditadura.

Vázquez fez parte do grupo de seis ex-repressores processados em 2006, que incluía José Gavazzo, Jorge Silveira, Ernesto Rama, Ricardo Arab e Ricardo Medina.

- Segundo voo -

Vázquez também reconheceu um segundo "voo da morte" em 1976, da Argentina para o Uruguai. Ambas as ditaduras colaboraram na repressão aos dissidentes.

"Tenho a ver com o segundo voo, com o primeiro voo, com quase tudo que aconteceu lá”, disse.

Militantes uruguaios da esquerda presos na Argentina em 1976 teriam sido transferidos em dois voos clandestinos. Os que entraram no primeiro sobreviveram, e os do segundo são desaparecidos. Em 2005, a Força Aérea Uruguaia admitiu esse segundo voo, mas os militares relacionados à ditadura negaram.

Os autos do processo foram obtidos há alguns dias pela organização Mães e Familiares de Presos Desaparecidos, que os disponibilizou ao Senado.

Por sua vez, o ministro da Defesa, Javier García, encaminhou-os à procuradoria-geral.

"Esses autos revelam a mentira de todos os comandantes militares, dos comandantes em chefe. Desde a saída da democracia até hoje dizem que procuram a verdade. É mentira, porque quando há a oportunidade de perguntar, mudam de assunto", declarou em coletiva de imprensa Ignacio Errandonea, membro da Mães e Familiares de Presos Desaparecidos.

Para a organização, "o silêncio e a não surpresa dos comandantes militares" ao obter essas confissões mostram que as Forças Armadas "se sentem à parte e superiores ao sistema democrático".

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