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Em um hospital de Bangladesh, em 13 de setembro de 2017, Azizul Haque, um rohingya de 15 anos, alonga-se sob o olhar preocupado da mãe

(afp_tickers)

Em suas últimas horas, Azizul Haque sequer tinha forças para gritar de dor enquanto lutava por sua vida, com o corpo mutilado por uma mina antipessoal colocada no perigoso caminho do êxodo dos rohingyas.

Alongando-se em um leito de hospital em Bangladesh, não muito distante da fronteira com Mianmar, o adolescente de 15 anos estava tão fraco que mal conseguia pedir à mãe que lhe desse um pouco de suco. Esta, por sua vez, não tinha dinheiro para comprar nem mesmo isso.

Enfaixado dos pés à cabeça, o corpo marcado pelos ferimentos causados pelos fragmentos da deflagração, Azizul perdeu as duas pernas e parte da mão na explosão de uma mina. Ele era mais um no fluxo de centenas de milhares de muçulmanos rohingyas a caminho de Bangladesh. Todos fugiam da violência no oeste de Mianmar.

A equipe da AFP esteve com o adolescente na quarta-feira (13) de manhã em um hospital de Cox's Bazar. Ele não resistiu e faleceu na madrugada desta quinta, informou a instituição à AFP.

Sua família fugia de seu povoado de Debinna, no estado birmanês de Rakhin, Estava perto da fronteira cercada por arame farpado de Bangladesh, quando o rapaz deu o passo fatal.

"Ouvimos uma enorme explosão, quando Azizul caminhou sobre uma mina", contou sua mãe, Rashida Begum, aos prantos, a seu lado.

"Eu vi suas duas pernas arrancadas", continuou.

"Todo mundo estava com pressa. Ninguém podia se preocupar com o outro, porque os birmaneses estavam perseguindo a gente logo atrás e iam queimando os povoados", completou Rashida, mãe de quatro filhos.

Embora os relatos de massacres, torturas e estupros coletivos tenham-se tornado corrente entre os refugiados rohingyas, as minas antipessoais instaladas em sua rota de fuga aprofundam o calvário dessa minoria muçulmana perseguida há décadas.

- 'Perseguição sistemática' -

Segundo autoridades de alto escalão do governo bengali, essas minas foram colocadas pelas forças birmanesas para impedir os rohingyas de voltarem para suas casas. O recurso a esse tipo de armamento é proibido na maioria dos países pela Convenção de Ottawa de 1997, mas Mianmar não é signatária deste acordo.

"Todas as informações apontam para as forças de segurança de Mianmar, visando, deliberadamente, a pontos de passagem usados pelos refugiados rohingyas", denunciou Tirana Hassan, da Anistia Internacional.

"É uma maneira cruel e sem coração de agravar o destino de pessoas que fogem de uma campanha de perseguição sistemática", acrescentou.

Essa onda de violência assola Rakhin desde o fim de agosto, quando o Exército lançou uma ofensiva brutal de repressão na esteira dos ataques de uma jovem rebelião rohingya.

Na quarta-feira (13), o Conselho de Segurança da ONU exigiu de Naypyidaw "passos imediatos" para acabar com a limpeza étnica que levou 380 mil rohingyas a buscar abrigo no vizinho Bangladesh, provocando uma grave crise humanitária.

A líder birmanesa, a Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, está sendo duramente criticada pela comunidade internacional por sua posição ambígua sobre o destino dessa comunidade. Ela anunciou um pronunciamento sobre o tema para a próxima semana.

Na sala onde Azizul Haque agonizava, pelo menos 20 rohingyas recebiam cuidados por ferimentos a bala, por explosões, ou por queimaduras.

Sabekun Nahar, de 50 anos, foi atingida nas pernas, depois de, provavelmente, passar por uma mina não muito longe do lugar que custou a vida de Azizul.

"Não sei se poderei voltar a andar algum dia", desabafa, com lágrimas nos olhos.

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AFP