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Crianças nadam no canal de Al-Hamarat, 14 km de Raqa

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Por muito tempo, Raqa se beneficiou do rio Eufrates, que atravessa esta cidade síria. Mas hoje, as pessoas sedentas estão dispostas a arriscar suas vidas para se abastecer de água em meio aos combates entre o grupo Estado Islâmico (EI) e as forças antijihadistas.

A cidade do norte da Síria está sem água corrente há várias semanas, desde a destruição das canalizações nos bombardeios, alguns dos quais atribuídos à coalizão internacional anti-EI liderada pelos Estados Unidos.

Sob um calor extremo, os habitantes desidratados são, assim, forçados a aventurar-se nas margens do Eufrates ou em poços improvisados ​​cavados pela cidade.

E isto tem colocado suas vidas em risco, à medida que se intensificam os combates entre o EI e as Forças Democráticas da Síria (SDS), uma aliança entre árabes e curdos apoiada por Washington, que entrou em 6 de junho em Raqa, reduto extremista na Síria desde 2014.

"Precisei ir bombear água de um poço no sul da cidade perto do rio", disse à AFP Karim, um ativista da rede Raqqa24. Bloqueado na cidade, ele preferiu usar um nome falso por medo de represálias dos jihadistas.

Os extremistas cortaram a rua que ligava a zona sul da cidade ao rio, fazendo com que ele e outros homens buscassem água em um buraco cavado por um morador local.

"Fomos capazes de tirar água por uma hora, mas depois tivemos de fugir por causa do fogo de artilharia. Um morteiro caiu a apenas 50 metros de distância de mim", relata.

- 46°C -

Ele descreve uma cena de pânico: famílias arrastando galões de água pela cidade e, de repente, começam a correr para se proteger dos tiros e ataques aéreos.

Civis que fugiram de Raqa também relataram à AFP que foram alvos de atiradores do EI emboscados quando tentavam encher seus recipientes no rio.

Com temperaturas atingindo 46°C, os habitantes de Raqa enfrentam um dilema: sofrer com a sede escondidos ou arriscar suas vidas para buscar água.

"A falta (de água) está nos matando. E água fresca só existe em nossos sonhos", explica Karim.

Desde que o EI assumiu o controle da cidade em 2014, Raqa é associada às atrocidades cometidas pelos extremistas, como os enforcamentos públicos.

Com o apoio da coalizão, as FDS tentam desalojá-los em favor de uma grande ofensiva lançada em novembro.

Há poucos anos, a cidade podia se vangloriar de sua localização privilegiada no fértil vale do Eufrates e das hidrelétricas vizinhas que forneciam energia para uma grande parte do país.

- 'Ironia' -

"A maior ironia se deve ao fato de que esta cidade está localizada à margem do Eufrates, mas está morrendo de sede", afirma a organização "Raqqa is Being Slaughtered Silently" (RBSS).

De acordo com esta organização, uma das poucas a manter ligação entre a cidade e o mundo exterior, pelo menos 27 pessoas morreram nas últimas semanas nos ataques aéreos da coalizão ao tentarem chegar ao rio ou a poços nas proximidades.

"Meu tio e sete crianças morreram há cerca de duas semanas quando iam para uma escola perto do centro da cidade onde um poço está localizado", assegura o co-fundador da RBSS, Abdalaziz al-Hamza.

Mas aqueles que conseguem tirar água do rio se expõem a problemas de saúde, segundo alertou recentemente a ONU, reportando uma água potencialmente "imprópria para consumo", que poderia provocar doenças.

"A população de Raqa usa essa água para higiene, para beber...", adverte outro ativista da RBSS, Houssam Eesa. "Mas ela não é limpa, especialmente por causa de todos os morteiros e os corpos", diz ele.

RBSS afirma ter documentado sintomas de doenças transmitidas pela água, como febre e perda de consciência, temendo casos de cólera.

AFP