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(2007) O ator americano Sam Shepard, no Festival de Veneza

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O ator e escritor americano Sam Shepard, que mostrou em suas obras o lado obscuro das famílias americanas, faleceu devido a complicações da esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como doença de Lou Gehrig, aos 73 anos.

"Shepard faleceu em seu rancho de Kentucky na quinta-feira, 27 de julho, por conta de complicações da ELA", uma doença neurodegenerativa, disse Chris Boneau, porta-voz da família, em comunicado.

"Estava com sua família no momento da morte", acrescentou o porta-voz, que pediu que respeitassem a privacidade de seus três filhos e de suas duas irmãs.

Shepard escreveu 44 obras de teatro, livros de contos curtos, ensaios, memórias e uma canção de 11 minutos com Bob Dylan, "Brownsville Girl", em 1986. Também foi indicado a um Oscar como ator coadjuvante pelo filme "Os Eleitos" (1983).

Ganhou um prêmio Pulitzer de melhor obra teatral em 1979 por "Buried Child" e foi indicado em mais duas ocasiões ao Pulitzer de teatro.

Também foi corroteirista do filme de Wim Wenders "Paris, Texas", que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984, de "Fool for Love" para o diretor Robert Altman e de "Zabriskie Point" para Michelangelo Antonioni.

Um de seus papéis mais recentes foi na série "Bloodline", produzida pela Netflix.

- O lado mais obscuro -

Suas líricas obras contam com personagens à margem da sociedade e também com o lado mais obscuro do "American Dream", por vezes com doses de surrealismo e humor.

"Na minha opinião, o tempo dirá que foi uma das vozes mais significativas dos Estados Unidos, que contou a história dos Estados Unidos com uma profunda percepção e com um ouvido para a expressão de nossas esperanças e medos mais profundos", disse à AFP Gary Grant, professor de Teatro na Universidade Bucknell que dirigiu várias obras suas.

"Sam Shepard é um dos melhores", disse nesta segunda-feira Beau Willimon, criador da série americana "House of Cards". "Esses olhos viram muito e ele escreveu com uma honestidade valente e atemporal", tuitou.

Nascido em 5 de novembro de 1943 em Illinois, Shepard teve com suas duas irmãs uma vida nômade, mudando-se de uma base militar a outra porque seu pai era militar. Sua mãe era professora.

A relação com seu pai, ex-piloto de caça na Segunda Guerra Mundial, alcoólatra, muito violento e machista, marcou profundamente a sua vida e obra.

"Você não precisa ir muito longe para ver que o homem americano está em uma viagem muito ruim", disse Shepard ao jornal The New York Times durante entrevista em 1984.

"Há algo escondido e profundamente enraizado no homem americano que tem a ver com inferioridade, que tem a ver com não ser um homem e sempre agir com a ideia de que masculinidade tem invariavelmente que ser violenta", afirmou.

Também ao The New York Times, mas em 2016, Shepard declarou que "embora tente não se parecer com o seu pai, não se pode evitar". "Quando encontra essas partes em você, [isso] vai além do psicológico, além do que você acha que pode controlar. E de repente você é o seu pai".

Shepard se formou em um liceu em Duarte, na Califórnia, onde já escrevia poesias e atuava, além de trabalhar em um estábulo e cuidar de cavalos.

Começou a estudar Agronomia na universidade, mas abandonou os estudos para se juntar a um grupo de teatro itinerante e chegou a Nova York em um ônibus no início dos anos 1960. Não tinha dinheiro -de acordo com a revista New Yorker teve que vendeu o seu sangue para conseguir comprar um hambúrguer- e começou a escrever peças de teatro, se associando ao movimento Off Broadway.

Teve uma relação com a cantora Patti Smith e compartilhou sua vida durante mais de três décadas com a atriz Jessica Lange, com a qual teve dois filhos nos anos 1980. Já havia tido um filho com a sua primeira esposa, a atriz O-Lan Jones, em 1970.

Dividiu as telonas com Lange por várias vezes, sobretudo em "Frances" -na qual Lange interpreta uma mãe e dona de casa alcoólatra, esposa de um militar- e em "Fool for Love" (adaptada de uma de suas obras de teatro).

O casal foi considerado durante muito tempo como um dos mais glamourosos de Hollywood, embora os dois sempre tenham mantido a discrição.

Shepard nunca foi muito presente nas redes sociais, mas esteve envolvido com o ensino. Deu aulas regulares sobre como escrever roteiros de teatro em universidades, ateliês, festivais e seminários e foi escolhido para a Academia americana de Artes e Letras em 1986.

AFP