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(1980) Nadine Gordimer

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A escritora sul-africana Nadine Gordimer, Prêmio Nobel de Literatura em 1991 e engajada na luta contra o apartheid, morreu neste domingo, aos 90 anos.

De acordo com um comunicado da família divulgado pelo escritório de advocacia Edward Nathan Sonnerbergs, Gordimer faleceu pacificamente enquanto dormia em sua residência em Johannesburgo.

"Seu maior orgulho", recordam os filhos no comunicado, "não foi apenas ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1991, mas também ter testemunhado (no julgamento), em 1986, ajudando a salvar o vida de 22 membros do ANC (Congresso Nacional Africano), todos acusados ​​de traição".

A romancista e Prêmio Nobel colocou seus textos a serviço da luta contra o apartheid e fez "surgir a História a partir de vidas individuais".

"Quando escrevemos, nós nunca estamos isolados da sociedade e do mundo", disse a mulher branca, que sempre se recusou a deixar a África do Sul, mesmo nas horas mais sombrias da segregação racial.

"Mas um escritor deve ter cuidado em uma situação de conflito, onde há opiniões fortes, para não escrever propaganda", ressaltava.

Elegante, mesmo em seus últimos anos de vida, esta filha de imigrantes judeus desenvolveu uma prosa que fazia jus a sua imagem: simples, sutil e intransigente.

Ela escreveu 15 romances ("Burger's Daughter", "My son's story", "Ninguém para me Acompanhar", entre outros) e muitos contos (A soldier's embrace, Something out there...), alguns dos quais foram censurados durante o apartheid.

Com retratos de grande introspecção psicológica, ela relatou as ambiguidades de seus compatriotas. Em 'The Conservationist' (1974), ela imagina o desconforto de um rico afrikaner que se vê com o cadáver de um de seus empregados negros nos braços. Em 'July's people', de 1981, ela descreve o estado emocional de uma família branca obrigada a refugiar-se na casa de sua empregada doméstica por causa de uma revolução.

"Sua obra é sensível à vulnerabilidade de indivíduos forçados a fazer escolhas políticas, mas sem piedade ao descrever as falsas aparências da boa consciência", resumiu, em 2007, o embaixador da França em Pretória, Denis Pietton, ao entregar-lhe a Legião de Honra.

Nascida em 20 de novembro de 1923, Nadine Gordimer era filha de imigrantes judeus oriundos da Europa Oriental. Ela cresceu em um bairro rico da pequena cidade mineiradora de Springs, ao leste de Johannesburgo. Sua mãe, convencida de que ela sofria de uma doença cardíaca, retirou-a da escola.

Frequentou regularmente bibliotecas e começou a escrever aos nove anos de idade. Publicou o primeiro romance aos 15 anos em uma revista local.

"Anos mais tarde, eu percebi que se eu fosse negra, eu provavelmente não me tornaria uma escritora, uma vez que as bibliotecas que eu frequentava eram proibidas a eles", disse ela ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1991.

Nadine Gordimer se engajou ativamente na luta contra o apartheid após a prisão de um amigo próximo, em 1960. Ela tornou-se membro do Congresso Nacional Africano (ANC), então proibido, e ajudou militantes procurados pela polícia.

Ligada a advogados de Nelson Mandela, ela foi uma das primeiras figuras que o ícone da luta anti-apartheid pediu para ver depois de sua libertação da prisão em 1990.

Ela continuou a escrever após o democratização do país em 1994, sem hesitar, apesar de sua idade avançada, a apontar as falhas dos sucessores de Nelson Mandela no novo regime.

Mas se recusou a acrescentar sua voz ao coro de críticas sobre a violência da sociedade (ao contrário de André Brink e J.M. Coetzee), mesmo depois de ser vítima de um assalto em 2006.

"Um dos assaltantes me pegou pelo braço. Ele tinha um braço forte, firme e pensei: estas mãos não têm nada melhor para fazer do que roubar uma senhora de idade? Que confusão para estes quatro jovens homens, eles deveriam ter um emprego", comentou na época ao jornal The Guardian.

Muito discreta sobre sua vida particular, se opôs à publicação de uma biografia em 2005, em que o autor Ronald Suresh Roberts descrevia longamente a doença de seu último marido.

Nadine Gordimer se casou duas vezes e teve um filho de cada matrimônio.

AFP