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Poucas pessoas perambulam pelas esquinas agora controladas pela Guarda Municipal Metropolitana

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As ruas da Cracolândia, no coração de São Paulo, lembram caminhos interrompidos de um formigueiro pisoteado. A violenta operação policial que desalojou o "bairro do crack" no domingo deixou incertezas e preocupação, e seu principal efeito foi, segundo seus críticos, dispersar o narcotráfico.

Poucas pessoas perambulam pelas esquinas agora controladas pela Guarda Municipal Metropolitana. Vizinhos reclamam ter sido expulsos de suas casas de forma arbitrária e comerciantes tentam resgatar o que resta de seus locais cobertos por tapumes.

"Imaginem acordar com um revólver na cara", disse Eduarda de Lima, que mora há 12 anos com os dois filhos pequenos em uma pensão do bairro. "Não nos disseram nada, os policiais entraram com armas, derrubando portas, ameaçando", contou à AFP ao lembrar a ação que envolveu quase mil policiais.

O crack chegou à capital econômica do País há quase três décadas e virou um problema de saúde pública. Segundo dados da Confederação Nacional de Municípios, 193 dos 644 municípios do estado de São Paulo têm um problema grande provocado pelo consumo de drogas e 20% das cidades brasileiras estão na mesma situação.

A Cracolândia surgiu no bairro da Luz, perto de pontos turísticos, como o Museu da Língua Portuguesa e a estação da Luz. Foi assim nomeada devido à grande afluência de traficantes e consumidores (até 2.000 em um mesmo dia, segundo cálculos oficiais), que tomaram suas ruas com antigos prédios ocupados por pessoas de baixa renda.

Estudos dos últimos cinco anos estimam entre 350.000 e 400.000 os consumidores de crack em São Paulo.

Operações policiais prévias só serviram para criar "mini-cracolândias" em bairros vizinhos, e o comércio ilegal sempre acaba voltando a se concentrar no mesmo local.

"Usar a Polícia para a guerra contra as drogas não faz sentido e não dá resultados. A operação deste domingo foi apenas um capítulo mais de uma política desastrosa do Estado brasileiro", disse o pesquisador César Muñoz, do Human Rights Watch em São Paulo.

A operação está se tornando mais uma pedra no sapato do recém-empossado prefeito João Doria, um empresário com aspirações à Presidência empenhado em demonstrar que um bom gestor pode ser a alternativa aos desprestigiados políticos para o eleitor brasileiro.

"A Cracolândia acabou", comemorou Doria na segunda-feira. Seu mentor e agora adversário, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, replicou que este otimismo era prematuro porque a Cracolândia é um problema "crônico".

A secretária de Direitos Humanos da Prefeitura, Patricia Bezerra, criticou o que considerou de uma incursão desastrosa e apresentou sua demissão.

De fato, após a intervenção de domingo, centenas de consumidores de drogas, sem alternativas claras e em situação de indigência, se reúnem em colchas e barracas e plástico na Praça Princesa Isabel, a apenas dois quarteirões, construindo uma nova Cracolândia.

"Até parece que as autoridades estão brincando de esconde-esconde" com os vendedores e os usuários de drogas, comentou Marcos Fuchs, diretor-adjunto da Conectas, uma ONG de direitos humanos.

Sem oportunidades

"Não nos deram chance de nada, sabe? É como se entrassem na tua casa com armas e te falassem 'sai agora' (...) Tudo ficou lá dentro", relata Cícero Barboza, que gerenciava uma pensão interditada desde o domingo com blocos acinzentados.

"Aqui não houve um plano de contingência, isso aqui foi pura estratégia militar, o uso desproporcional da força respondendo a critérios apenas imobiliários", afirmou um funcionário da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura, que preferiu manter sua identidade preservada.

"Como você pode jogar as pessoas na rua sem debater um plano de moradia? Sem um cadastro prévio? Isso aqui é inviável?", criticou Luiz Matos, dono de um armazém que estava parcialmente coberto com tapumes.

O metro quadrado no bairro da Luz é avaliado em 7.213 reais, apenas 430 reais abaixo da média da cidade, segundo dados de abril do setor imobiliário.

Mas para Fuchs, recuperar o bairro sem considerar a problemática social e de saúde pública é inconcebível. O advogado elogia iniciativas como a do programa Braços Abertos, iniciado pela gestão do prefeito anterior, Fernando Haddad (PT), para oferecer moradia, alimentação e ocupação aos consumidores de drogas da região.

Ele não é o único. Um estudo da Open Society de 2015, atualizado em 2017, qualifica este projeto como modelo por priorizar a moradia, minimizando barreiras burocrática e sem critérios de exclusão. O programa foi interrompido pela gestão atual.

O Poder Judiciário emitiu ordem para proibir novos desalojamentos e demolições no local, mas a incerteza permanece.

Para Muñoz, "o Brasil claramente precisa repensar sua política contra as drogas, mas parece que a resposta das autoridades continua sendo resolver com a Polícia e isso não funcionou em nenhum país do mundo".

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AFP