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(16 mai) Delegados de todo o mundo participam das negociações em Bonn

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Os delegados do clima do mundo inteiro concluíram nesta quinta-feira, em Bonn, 10 dias de negociações em meio às incertezas sobre a saída da administração americana de Donald Trump do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas.

"Todos somos vulneráveis às mudanças climáticas e todos devemos agir", insistiu na sessão plenária final o primeiro-ministro de Fiji, Frank Bainimarama, que presidirá em novembro, também em Bonn, a COP23, a conferência climática anual da ONU.

Bainimarama, que ao fim da COP de Marrakech fez um apelo intenso a Donald Trump, então recém-eleito, para que não "abandonasse o barco", destacou que as regiões mais expostas vão "das ilhas do Pacífico a Miami, Nova York e Veneza". "O momento é crítico", acrescentou, sem mencionar os Estados Unidos, que estão na mira de todos os negociadores.

Ao fim das reuniões, nesta quinta-feira, os delegados falaram dos avanços nos trabalhos, confirmando um "impulso comum", e dizendo que "continuam sendo positivos" apesar do medo inicial de que a dúvida dos Estados Unidos desmotivasse os negociadores e pudesse criar um efeito dominó em alguns países.

"Não podemos renunciar porque um de nós decidiu abandonar a família", declarou a embaixadora de Fiji, Nazhat Shameem Khan. "Por enquanto, os Estados Unidos não tomaram uma decisão e nós esperamos que permaneçam no Acordo. Mas não iremos paralisar nosso trabalho, ainda que a decisão seja negativa", acrescentou.

"O espírito é bom. Há debates, alguns como a UE querem mais rigor na aplicação do Acordo, outros mais flexibilidade... Mas não houve indícios de bloqueio como no passado", antes da adoção, no fim de 2015, de um acordo mundial contra a mudança climática, apontou David Levain, antigo negociador francês que hoje trabalha para o Instituto de Desenvolvimento Sustentável de Paris.

"Este contexto americano cria uma forma de solidariedade", manifestou.

Os debates foram técnicos, sobretudo a respeito do procedimento nas regras de aplicação do Acordo de Paris. Sobre o "modo de emprego do Acordo" não saiu nada tangível já que os negociadores têm até 2018 para precisá-lo.

- "Convencer os Estados Unidos" -

O processo climático está suspenso à espera da decisão de Donald Trump, que parece que agora vacila, apesar de ter prometido durante sua campanha eleitoral que retiraria os Estados Unidos deste acordo, apresentado por ele mesmo como uma "mentira" fomentada pelos chineses.

Em Bonn, a delegação americana, reduzida ao seu mínimo histórico, esteve o tempo todo à espera de instruções.

"Seu chefe é um negociador experiente. Repetiu que sua posição estava sendo reestudada", assinalou a responsável do clima na ONU, Patricia Espinosa.

Todos os olhares se concentram agora nas cúpulas do G7, nos dias 26 e 27 de maio, e do G20, no início de julho na Alemanha.

"Trabalhamos duro com muitos amigos no mundo para convencer os Estados Unidos de que permanecer no Acordo de Paris é uma boa escolha", disse Jochen Flasbarth, secretária de Estado do Ministério do Meio Ambiente alemão.

Para o negociador de Mali, Seyni Nafo, chefe do grupo da África, "é necessário que os Estados Unidos tomem uma decisão o mais rápido possível. Isso não pode continuar indefinidamente, a fim de que os países se reposicionem".

Entretanto, quanto mais a dúvida perdurar, "mais esperamos conseguir convencê-los", disse também David Levain.

O Acordo de Paris, sob o guarda-chuva da ONU, pretende limitar o aquecimento global a 1,5ºC ou 2ºC, em relação ao nível da Revolução Industrial, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa.

Não obstante, os compromissos nacionais atuais conduzem o mundo a uma alta do mercúrio de 3ºC. O Acordo de Paris prevê, portanto, que os países revisem em médio prazo suas ambições para evitar impactos maiores em todo o mundo.

De fato, segundo vários estudos, os indicadores do aquecimento global são ainda mais alarmantes. De acordo com um estudo publicado nesta quinta-feira na Nature Scientific Reports, um aumento do nível do mar de "somente 10 cm" duplicaria o risco de inundações na costa oeste dos Estados Unidos e na costa atlântica europeia.

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