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Um membro da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho aponta para a fumaça que sai de um prédio depois de um ataque israelense em Rafah, no sul da faixa de Gaza

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A vida tentava retomar seu curso normal na Faixa de Gaza nesta quarta-feira, segundo dia de um cessar-fogo provisório e que depende das difíceis negociações entre israelenses e palestinos que atualmente prosseguem no Cairo.

Uma relativa normalidade reinava no território devastado pelos bombardeios do exército israelense, onde os habitantes acreditam que este cessar-fogo de 72 horas aceito por Israel e o Hamas e que encontrou em vigor na terça-feira às 08H00 (02H00 no horário de Brasília) pode perdurar, diferentemente de todas as tréguas precedentes.

Cabe aos israelenses e aos palestinos enviados ao Cairo transformar esta pausa na guerra em uma trégua durável durante negociações indiretas sob a mediação do Egito, um dos dois únicos países árabes a assinar um acordo de paz com Israel.

Essas discussões tendem a ser muito difíceis, com exigências inconciliáveis e uma multiplicidade de atores com interesses divergentes.

O exército israelense garante ter retirado todas as suas tropas da Faixa de Gaza, além de anunciar o levantamento de todas as restrições impostas à população civil do lado israelense. Mas seus soldados continuam "prontos para qualquer eventualidade", advertiu Benny Gantz, seu chefe de Estado-Maior.

Pescadores retornam ao mar

Os habitantes de Gaza reencontraram lojas e bancos abertos. Dezenas de pescadores retornaram ao mar pela primeira vez em semanas.

Para Gaza, o grande desafio de reconstrução vai começar. A ofensiva militar lançada por Israel em 8 de julho para fazer parar os disparos de foguete contra seu território e destruir a rede de túneis utilizada pelo Hamas deixou 1.875 palestinos mortos, incluindo 430 crianças e adolescentes, segundo o ministério palestino da Saúde.

A Organização das Nações Unidas declarou estar disposta a ajudar na reconstrução de Gaza, mas pela última vez, segundo seu secretário-geral, Ban Ki-moon, que pediu por uma paz duradoura durante uma reunião especial da Assembleia Geral da organização.

"Será que devemos continuar construindo, destruindo, construindo e destruindo?", questionou Ban, assegurando que "esta deve ser a última vez que se reconstrói" a Faixa de Gaza.

O conflito também mergulhou no abismo uma economia já estraçalhada de um pequeno território em que 1,8 milhão de pessoas tenta sobreviver ao bloqueio israelense.

Do lado israelense, 64 soldados e três civis morreram.

Os serviços de emergência palestinos ainda tentam limpar as ruas e recuperar corpos ainda sob os escombros em Shajaya e Khuzaa. Os trabalhadores das companhias de eletricidade também se esforçam para restabelecer o fornecimento do serviço.

A Liga Árabe anunciou, por sua vez, que enviará em breve ministros de pelo menos quatro de seus países membros a Gaza como mostra de "solidariedade" com os palestinos. Esta delegação também deverá avaliar as necessidades para a reconstrução do território palestino, estimadas pela Autoridade Palestina em vários bilhões de dólares.

"Olhe para a minha casa, foi pulverizada", lamentava Abu Musa al-Rus em frente ao que um dia foram as paredes de sua residência e que agora não passam de pedaços de concretos pichados pelos soldados israelenses.

Para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o Hamas é o responsável pelos sofrimentos na Faixa de Gaza.

O premiê disse ainda que a ofensiva em Gaza é justificada e proporcional à ameaça representada pelo movimento islamita palestino.

Também destacou que é importante que a Autoridade Palestina desempenhe um papel em Gaza.

"Acho que isso é importante para a reconstrução de Gaza", afirmou à imprensa.

Uma guerra sem vencedor

Israel e o Hamas aceitaram uma trégua segunda-feira à noite, e agora as delegações israelense e palestina (com representantes do Hamas, de seu aliado da Jihad Islâmica e do Fatah) negociam no Cairo com exigências aparentemente irreconciliáveis.

O levantamento do bloqueio a Gaza é uma das principais exigências palestinas, enquanto Israel insiste em seu imperativo de segurança.

Os egípcios se reuniram terça-feira à noite com os israelenses, e nesta quarta com os palestinos.

As autoridades israelenses se mostraram discretas nesta quarta após seguidas fortes declarações.

Do lado palestino, a intransigência permanece, pelo menos publicamente. "Nossa delegação no Cairo (...) não cederá a qualquer uma de nossas exigências", garantiu Ismail Haniyeh, ex-primeiro-ministro do Hamas em Gaza e número dois do braço político do Hamas. "O que o ocupante não conseguiu no campo de batalha, não pode conseguir no cenário político", insistiu.

Os Estados Unidos indicaram que, provavelmente, participarão das discussões do Cairo. Todos cientes de que nada pode proteger contra uma nova explosão da violência em poucos meses.

O secretário de Estado americano John Kerry apelo os dois lados em conflito para aproveitar o cessar-fogo em Gaza para relançar o esforço mais amplo de paz israelense-palestiniano, o que parece mais distante.

Para a maioria dos israelenses a guerra na Faixa de Gaza não tem nada a ver com os esforços de paz mais amplos, enquanto que para 51% dos israelenses consideram que nem Israel nem o Hamas triunfaram neste último conflito, segundo uma pesquisa publicada pelo jornal Haaretz.

AFP