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O coveiro Ulisses, testemunha da tragédia do coronavírus em Manaus

Ulisses Xavier, de 52 anos e que trabalha há 16 anos no cemitério Nossa Senhora Aparecida de Manaus, em 8 de maio de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 09. maio 2020 - 13:03
(AFP)

Ulisses Xavier está acostumado a lidar com a morte. Mas em 16 anos trabalhando como coveiro, nunca teve que enterrar dezenas de pessoas em valas comuns. O novo coronavírus colapsou o sistema de saúde de Manaus, capital do Amazonas, triplicando o número diário de óbitos.

"Quando começou o aumento dos sepultamentos, eu fiquei assustado. Agora já me acostumei. Sinto que está diminuindo aos poucos. Espero que isso passe logo", disse Ulisses à AFP no cemitério público Nossa Senhora Aparecida, em Manaus.

A média diária de mortes na cidade de 2,1 milhões de habitantes passou de 30 antes da pandemia para uma centena. Manaus amarga o maior índice de mortalidade de uma capital brasileira pelo novo coronavírus, com 6.034 contágios e mais de 600 mortes até esta sexta-feira (8).

Com a chegada da COVID-19, Ulisses, de 52 anos, teve que fazer mudanças radicais em sua rotina: trabalha mais horas, precisa usar equipamento de proteção para evitar se contagiar e toma todos os cuidados necessários para não levar a doença para casa.

"Tenho medo de levar a doença para dentro da minha casa. Trabalho em uma área de grande risco de contaminação", afirma.

Alguns dias, ele desce os caixões para as valas comuns que começaram a ser abertas há semanas no cemitério, pouco depois de o saturado sistema de saúde não dar conta de atender dezenas de pacientes. Várias pessoas simplesmente morreram em casa, sem que as famílias saibam se foi por COVID-19 ou outra causa.

Outras vezes, este homem de estatura mediana abre túmulos individuais. Fica esgotado depois de cavar cinco.

- Ritual sagrado -

Ulisses e um grupo de colegas coveiros também fabricam marcos e cruzes de madeira, que as famílias dos falecidos compram para identificar as tumbas de seus entes queridos. É um ganho extra para complementar seus salários.

Os marcos e as cruzes, mais baratos que uma lápide, são pintadas em azul e do próprio punho, Ulisses escreve com tinta preta o nome do finado e as datas de nascimento e morte.

Com a COVID-19, foi preciso dobrar a produção: antes, cada coveiro vendia três unidades por dia. Hoje são seis.

Com uma coragem que remete à de seu homônimo da Odisseia, este coveiro enfrenta a tragédia que se abate em Manaus e garante não ter medo da COVID-19, apesar de já ter perdido alguns amigos e vizinhos por causa da doença.

Seu irmão, Hércules, de 53 anos, suspeita ter os sintomas do coronavírus e agora os dois se cumprimentam através de um muro que separa suas casas.

Por isso, ao final de um longo dia, Ulisses volta para casa de bicicleta e cumpre um ritual de limpeza sagrado.

"Chego em casa, tiro a minha roupa, entro no banheiro. Tomo banho e já lavo minha roupa. Só depois disso que vou abraçar minha filha e minhas netas", relata Ulisses, cuja esposa se mudou temporariamente para outro lugar para não contrair o coronavírus.

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