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Homem trabalha em campo de cana em Calimete, na província de Matanzas, em 16 de março de 2017

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O doce aroma de melado costumava invadir o ar da cidade de Pedro Betancourt. Mas, assim como os funcionários da refinaria de açúcar Cuba Libre, ele desapareceu.

Era o perfume do sucesso dentre todas as dificuldades de Cuba, especialmente após o rompimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos e seus aliados durante a Guerra Fria.

Ainda assim, o país sob regime comunista de Fidel Castro continuou sendo o campeão mundial na produção de açúcar até a queda da União Soviética e a consequente interrupção do comércio entre ambos os países.

Atualmente, uma máquina de demolição está terminando de desfazer o que resta do esqueleto de aço oxidado da Cuba Libre. Fidel está morto, a Guerra Fria já acabou - e Cuba deseja recuperar sua indústria açucareira.

"A refinaria era a vida das pessoas que viviam aqui", assegura Arnaldo Herrera, de 86 anos. Ele perdeu o emprego na usina quando as atividades ali foram encerradas em 2004.

Ascensão da cana

A Grã-Bretanha e outros colonizadores se desenvolveram economicamente a partir da exploração da cana de açúcar - produzida por escravos negros - desde o século 18 até a independência de Cuba na virada do século 20.

A ilha, então, começou a exportar uma grande quantidade de açúcar para os Estados Unidos, até Washington impor um embargo após a Revolução Cubana liderada por Fidel Castro em 1959.

Posteriormente, Fidel anunciou uma "ofensiva revolucionária" para restaurar a indústria. A União Soviética comprava o açúcar a preços especiais.

Em 1970, Fidel fixou a meta de produzir 10 milhões de toneladas, faltando apenas 1,5 milhão para alcançar seu objetivo.

Porém, depois do colapso da União Soviética em 1989, além da manutenção do embargo americano e a queda nos preços, a ilha não tinha mais a capacidade de competir.

Dois terços de suas refinarias -- aproximadamente 100 usinas -- foram fechadas desde 2002.

Dos oito milhões de toneladas anuais dos anos 1990, a produção regrediu para pouco menos de um milhão em 2010.

"Ali foi quando atingimos o fundo do poço", assume Rafael Suarez, chefe de relações internacionais do monopólio açucareiro Azcuba.

"Desde então esforços têm sido feitos. Houve um investimento nas refinarias, e há foco na recuperação da produção de açúcar".

Suarez acrescenta que Azcuba também tem o objetivo de expandir sua produção de derivados do açúcar: rum, alimentação para gado e combustível renovável.

Custos humanos

Aproximadamente 100.000 cubanos costumavam trabalhar em refinarias como a de Pedro Betancourt.

Essas fábricas os remuneravam bem para o mercado cubano - rendia o dobro da média do salário mensal, de US$ 28.

Julio Dominguez, de 84 anos, trabalhou em Cuba Libre até o local fechar.

"Essa cidade foi dilacerada. A produção de tabaco foi tudo o que restou", conta ele.

A refinaria parou de produzir em 2004 e a sua demolição começou apenas em 2007. Assim como tudo em Cuba, as coisas costumam demorar.

Alguns ainda se comovem quando passam em frente ao local, como apontou o chefe da equipe de demolição, Eliecer Rodriguez.

"Eu estou demolindo, mas a decisão foi de outra pessoa", argumenta ele.

Os funcionários continuaram recebendo seus salários por algum tempo após o encerramento das atividades da fábrica.

Alguns começaram a trabalhar como produtores de tabaco, assim como taxistas ou "faz-tudo". Outros imigraram para os Estados Unidos.

"O fechamento de uma refinaria de açúcar é algo sempre traumático, em aspectos humanos e sociais", argumenta Suarez.

"O que a Revolução fez foi tomar todas as precauções para que ninguém se sentisse abandonado".

Doce aroma

Em breve, somente as chaminés de concreto da Cuba Libre irão continuar existindo nas proximidades dos campos verdes de cana-de-açúcar.

Mas a uma distância de 70 quilômetros dali, uma outra chaminé ainda funciona. O ar tem cheiro de caramelo.

A atividade continua a todo vapor na refinaria Jesus Rabi.

O operador da caldeira, Juan Hernandez, 63 anos, ficou desempregado após o fechamento de dois postos de trabalho no qual atuava antes do cargo atual.

"Aqueles tempos foram penosos. Quando uma refinaria fecha, ela encerra todas as suas atividades. Não há outra economia para isso".

Cuba programou-se para intensificar sua produção e atingir a marca de dois milhões de toneladas ao ano desde o seu pior percentual em 2010. Atualmente esse processo é quase completamente mecanizado.

Mais da metade de suas exportações têm como destino final a China e Rússia.

Suarez relembra que a ilha tem a capacidade de aumentar sua produção para 4 milhões de toneladas ao ano. Isso ainda é insignificante em termos mundiais.

"Os dias nos quais um pequeno país como Cuba era o maior exportador de açúcar nunca mais voltarão", admitiu. "Nós não fingimos que eles voltarão".

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