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(Arquivo) Bandeira chilena em Pucon no dia 4 de março de 2015

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Com as águas mais intocadas e as florestas mais austrais do planeta, as espécies que crescem no inóspito Cabo Horn, no Chile, no extremo sul do continente americano, atuam como sentinelas das mudanças climáticas.

No fim do mundo, onde quase não há intervenção humana, longe das emissões industriais, a passagem do tempo parece ter sido suspensa, permitindo a conservação de grandes populações de musgos, insetos e aves.

"Isto é um Jurasic Park para o Hemisfério Norte. É incrível", diz Ricardo Rozzi, biólogo e diretor do programa de conservação Biocultural Subantártica, a um grupo de jornalistas que o acompanham na visita à Reserva da Biosfera Cabo de Horn, protegida pela Unesco desde 2005, na localidade de Isla Navarino, em Puerto Williams, a cidade mais austral do mundo.

Integrante do arquipélago da Terra do Fogo, no extremo meridional na América do Sul, o Cabo Horn é um laboratório natural único para o estudo das interações entre as regiões subantárticas e antárticas chilenas.

Sem enxofre, nem chumbo, nem elementos químicos encontrados em outras regiões do planeta, suas águas são consideradas "um laboratório natural, que gera uma linha de base pré-industrial para estudar o que aconteceu nas florestas de Escócia, Canadá, Escandinávia, Sibéria, antes da chuva ácida", explicou Rozzi.

Situado entre os oceanos Atlântico e Pacífico, deve sua biodiversidade única ao seu isolamento e a ter conseguido escapar da industrialização e da presença maciça do ser humano.

Pela mesma razão, as águas do rio Róbalo, que alimentam a cidade de Puerto Williams e cruzam a Reserva, são as mais remotas do planeta, com zero presença de contaminantes inorgânicos.

Sentinelas das mudanças climáticas

Mas pouco a pouco, essa inóspita região reage à elevação das temperaturas provocada pelas mudanças climáticas nesta zona chuvosa ao sul do Canal de Beagle, onde a temperatura média anual atinge os 6º.

Os pesquisadores detectaram que o ciclo de vida dos insetos flebótomos, como os mosquitos Phlebotomus papatasi, se antecipou, terminando antes do habitual durante todo o seu tempo de evolução.

"Nós os chamamos sentinelas das mudanças climáticas porque nos dão um aviso precoce" das transformações, explicou à AFP a pesquisadora do Programa de Conservação Biocultural Subantártica Tamara Contador.

Com temperaturas mais elevadas, o metabolismo destas espécies é mais rápido e por isso "as gerações estão terminando antes do que costumava ocorrer", explicou Contador.

E esta mudança está causando um completo desajuste ecossistêmico, como se vê em algumas aves migratórias, que tradicionalmente vinham se alimentar nesta região na época da eclosão dos ovos de alguns insetos e agora não encontraram alimento.

A Reserva concentra também grande quantidade de espécies de briófitas, pequenas plantas que vivem em locais úmidos, tão pequenas que a maioria só pode ser vista com lupa, explicou Rozzi, professor também da Universidade do Norte do Texas.

Diante do aumento das temperaturas e em busca de locais mais frios, a pergunta que os cientistas se fazem é se serão capazes de chegar até a Antártica e começar a colonizar o continente branco.

E embora a área seja protegida, "serão capazes de resistir à invasão com espécies que vêm do norte e que são competitivamente mais fortes?", questionou-se este professor.

Estas interrogações ainda não têm resposta nesta zona crítica para monitorar as mudanças climáticas e avaliar o impacto do aquecimento global.

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