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Palestinos se desespera ao ver o corpo de três crianças de sua família, Afnan, Yihad e Wissam Shuhaiber, no necrotério do hospital al-Shifa, em Gaza, em 28 de julho de 2014.

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A correspondente da AFP no Oriente Médio, Sara Hussein, já testemunhou muitas guerras na região, mas o atual conflito armado entre o movimento radical palestino Hamas e Israel em Gaza se diferencia por uma característica cruel: o grande número de crianças mortas.

"Já estive em lugares como a Síria e a Líbia e vi coisas estarrecedoras que são comuns em conflitos armados. Vi crianças mortas antes, mas nunca como nesta guerra em Gaza. Nunca tantos, nunca tantos seguidos", afirma.

"Todo mundo ama seus filhos, e em Gaza não é diferente. Mas aqui há um sentimento especial por eles, um orgulho que está acima do zelo pela privacidade ou da modéstia. Todos querem mostrar fotos de seus filhos. Os homens pegam seus celulares até mais rápido do que as mulheres para exibi-las".

"Vi fotos da maioria dos filhos dos funcionários do hotel em que estou hospedada. Meu recepcionista favorito, Ayman, tem duas filhas, uma das quais herdou sua linda pele e seus olhos claros. O barbudo e sorridente vigilante Mahmud tem três meninos, e o menor deles, segundo comentou - numa mistura de orgulho e vergonha - é 'tão bonito quanto uma menina'".

Segundo a jornalista, as crianças estão por todas as partes em Gaza. Elas brincam nos arredores dos acampamentos de refugiados e nas escolas administradas pela Agência da ONU para os Refugiados Palestinos, a UNRWA, onde mais de 160.000 pessoas buscaram abrigo para fugir de seu lares ameaçados pelos bombardeios.

"Muitas delas são audaciosas e curiosas, estendem decididamente a mão para que as cumprimentemos, perguntam nosso nome, perguntam sobre nossa família, de onde viemos...", lembra.

"Duas irmãs em uma escola em Gaza remexeram dentro de minha bolsa buscando algo com que se divertir, e terminamos brincando de bater palmas", conta ainda.

"Outras, em compensação, ficam caladas de uma forma que parece ser muito mais que um traço da personalidade. Na mesma escola, uma menininha ruiva com olhos enormes ao me cumprimentar, ficou apertando com força minha mão e me disse que se chamava Yasmin. Foi a única coisa que conseguiu falar. Mas me seguiu por toda a escola enquanto eu entrevistava outras pessoas, e depois sentou-se perto de mim enquanto eu esperava pelo início de uma coletiva.

Ela não queria falar, só queria ficar ao meu lado."

No necrotério

Sara lembra quando, no necrotério do hospital Shifa de Gaza, os funcionários limpavam três pequenos corpos, das crianças Afnan, Yihad e Wissam Shuhaiber. Eles com certeza já haviam visto muitos corpos de crianças mortas, com ferimentos, mutiladas. Mas sua aparente indiferença se tornava mais impressionante pelo contraste com o sofrimento refletido nos rostos dos parentes desses menores.

"Os irmãos Yihad e Wissam e sua prima Afnan estavam brincando quando um foguete caiu sobre sua casa. Os vizinhos conseguiram retirá-los dos escombros ainda com vida, mas eles morreram pouco depois. Eles apresentavam ferimentos por todo o corpo. Os dentes de um deles pareciam ter sido destruídos pelo impacto. O menor deles, Wissam, usava um short azul e amarelo de super-herói", conta Sara.

"Chorava enquanto fazia anotações"

A jornalista reconhece que foi difícil manter a compostura no necrotério enquanto os enfermeiros cuidavam das três pequenas vítimas e recebiam uma quarta criança que acabara de morrer em outro hospital.

"Consegui entrar no necrotério antes dos outros jornalistas e fiquei quieta, num canto, observando como a equipe trabalhava e como os familiares, que presenciavam a mesma cena que eu, oscilavam entre a revolta e a mais absoluta dor. Continuei fazendo notas, mas chorei o tempo todo. E chorei quando escrevi sobre aquilo mais tarde".

Como os Shuhaiber, muitas crianças foram bombardeadas enquanto brincavam. "Em 16 de julho, estava transmitindo uma matéria no meu quarto de hotel quando uma explosão me fez sair correndo para o hall. Quando cheguei lá, havia crianças correndo tomadas pelo pânico, vindas da praia onde meu hotel estava localizado. Enquanto corriam, outro projétil caiu junto a elas. Várias conseguiram ser refugiar no hotel, onde os funcionários e jornalistas tentaram acalmá-los e cuidar de seus ferimentos".

"Pelo menos três ficaram feridas. Junto com outros dois jornalistas, tentei ajudar um menino com ferimentos no peito. As ambulâncias chegaram e levaram os feridos. Depois foram à praia e encontraram quatro crianças mortas".

Quando o pânico passou, o chão do hotel estava coberto de sangue e pedaços de gaze. Para Sara, é difícil encerrar este relato. Não há final feliz.

"Mas vivi um momento que ficou gravado em minha mente pelo contraste da situação. Aconteceu na casa de um de nossos maravilhosos colegas em Gaza, Adel Zaanoun".

Sara e seus anfitriões se sentaram à mesa para o jantar do Iftar, a refeição noturna que quebra o jejum do mês sagrado dos muçulmanos, o Ramadã, e ele insistiu em deixar em seus braços os filhos gêmeos de dois meses, Adam e Alma.

"Eram tão pequenos, davam gritinhos e agitavam suas mãozinhas fechadas. Estavam tão absolutamente vivos que naquele momento nenhum de nós pôde deixar de sorrir", conta a jornalista.

AFP