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Pacientes de cólera são tratados em Porto Príncipe, no dia 9 de dezembro de 2014

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O Haiti vive um forte ressurgimento da epidemia de cólera que ameaça minar os progressos realizados nos últimos anos na luta contra a doença - alertou nesta quinta-feira um alto funcionário da ONU.

Em entrevista à AFP, o coordenador da luta contra a cólera no Haiti, Pedro Medrano, previu que até 2015 haverá "mais de 50.000 novos casos" da doença no país.

O número de afetados tinha caído de 60.000 em 2013 para 28.000 no ano passado, o nível mais baixo desde o início do surto em outubro de 2010.

"Infelizmente, devido à falta de recursos e por causa da estação das chuvas, passamos nos últimos seis meses de 1.000 novos casos por mês para cerca de 1.000 casos por semana", o que equivale a 11.721 casos e 113 mortes entre 1º de janeiro e 28 de março, explicou. Além disso, uma nova temporada de chuvas no início de junho poderia acelerar a tendência.

Acrescente a isso a saída de várias ONGs do país e a queda no número de centros de tratamento, que passaram de 250 em 2011 para 159 em 2014.

A epidemia de cólera já matou 8.800 pessoas desde outubro de 2010, entre 736.000 casos notificados.

Peritos independentes concluíram que a epidemia foi introduzida por soldados Capacetes Azuis nepaleses, cujos excrementos poluíram um rio no norte de Porto Príncipe. No entanto, até agora, a ONU se recusou a reconhecer oficialmente sua responsabilidade, apesar das queixas apresentadas pelas vítimas.

Concorrência com Ebola

"Para a comunidade de doadores, a cólera já não é mais uma urgência" após quatro anos de luta contra a epidemia, lamentou Medrano. "O risco é que todo o progresso que fizemos até agora seja anulado", acrescentou.

Ele também alertou sobre a ameaça de disseminação para países vizinhos como Cuba ou República Dominicana.

No entanto, para ele o combate à epidemia de cólera continua a ser uma verdadeira prioridade. "Se não formos capazes de tratá-la, poderá tornar-se um perigo para a paz e a estabilidade" na região, ressaltou.

Ele lembra que, após um surto semelhante que se originou no Peru na década de 1990, a América Latina "levou dez anos para se recuperar", embora os países afetados tivessem sistemas de saúde melhor do que o haitiano - país com 10 milhões de pessoas, entre os países mais pobres do mundo.

Medrano reconhece que a epidemia de Ebola na África tenha prejudicado o Haiti, uma vez que monopolizou a atenção do mundo. A isto se acrescenta a instabilidade crônica no Haiti que "desencoraja os doadores". Embora "isso não deva ser uma desculpa", afirmou.

A ONU lançou um vasto programa de 2.200 bilhões em 10 anos para melhorar a infra-estrutura de saúde do país, mas falta dinheiro para tratar os doentes e prevenir o surgimento de novos casos.

As Nações Unidas planejam vacinar 300.000 pessoas este ano, mas ainda precisa de 1,9 bilhões de dólares para cumprir esta meta. Ao todo, a ONU ainda precisa de 36,5 milhões de dólares em 2015 para combater a epidemia.

É por esta razão que Pedro Medrano começou uma turnê que já o levou a Cuba, um importante fornecedor de medicamentos para o Haiti, e na próxima semana vai até Suíça, Áustria e França, que detêm "assistência técnica para fortalecer as instituições nacionais" no Haiti.

AFP