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Oposição e situação vão às ruas em uma Venezuela sob tensão após motim

Tropa de choque entra em confronto com manifestantes no barrio Los Mecedores de Caracas em 21 de janeiro de 2019 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 22. janeiro 2019 - 14:14
(AFP)

Manifestantes pró-governo e da oposição voltarão às ruas da Venezuela nesta quarta-feira (23) medir forças nas ruas em um clima influenciado pelo rápido levante de 27 militares que não reconhecem o presidente Nicolás Maduro.

"Temos um compromisso histórico com o nosso país, com o futuro dos nossos filhos. Militar venezuelano, amanhã temos um compromisso histórico com o povo", clamou Juan Guaidó, líder do Parlamento de maioria opositora, ao convocar a manifestação em sessão legislativa.

Enquanto isso, os Estados Unidos, país ao qual o presidente socialista acusa de estar por trás de um "golpe de Estado em andamento", expressaram nesta terça seu apoio às mobilizações populares, que exigirão um "governo de transição" e a realização de eleições.

"Estamos com vocês (...) e seguiremos com vocês até que se restaure a democracia e recuperem seu direito à liberdade", destacou o vice-presidente americano, Mike Pence, em vídeo divulgado no Twitter.

Em resposta, o ministro venezuelano da Comunicação, Jorge Rodríguez, acusou Pence de ordenar aos insurgentes entregar armas a ativistas do Vontade Popular - partido de Guaidó e do líder opositor preso Leopoldo López - para provocar "feridos e mortes na manifestação".

"Deixamos a violência para outros, amanhã é para nos reencontrarmos como povo, falar ao mundo dos passos que vamos dar para que cesse a usurpação, conseguir um governo de transição e uma eleição livre", disse Guaidó, ao se referir ao objetivo das manifestações opositoras.

Guaidó se diz disposto a liderar um "governo de transição".

"A única transição na Venezuela é para o socialismo", refutou o número dois do chavismo, Diosdado Cabello, ao convocar os seguidores do governo a marchar maciçamente em diferentes pontos do país.

Será a primeira grande queda de braço nas ruas após os violentos protestos que deixaram 125 mortos entre abril e julho de 2017, em meio à pior crise da história moderna do país petroleiro, com escassez de comida e remédios e uma hiperinflação que o FMI projeta em 10.000.000% para 2019.

A crise provocou o êxodo de 2,3 milhões de pessoas desde 2015, segundo a ONU, o maior movimento migratório da história recente da América Latina, que deu lugar a episódios de xenofobia em países vizinhos, como Brasil, Colômbia e Equador.

- "Fora, Maduro!" -

Às vésperas da marcha, cerca de 30 protestos pequenos foram registrados em setores populares de Caracas e arredores, alguns até a madrugada desta terça, com bloqueios de ruas, saques a estabelecimentos comerciais, panelaços e confrontos com autoridades, segundo a ONG Observatório de Conflito Social.

"'Fora, Maduro!', gritavam as pessoas. Foi horrível. A polícia atirando e gases lacrimogêneos por todos os lados. Tive que enfiar meus netos no banheiro", relatou à AFP Dinora de Longa, de 60 anos, no bairro Los Mecedores.

Os focos de protesto estouraram assim que, em meio a intensos apelos da oposição para que a Força Armada rompa com Maduro, 27 militares roubaram armas de um quartel e se entrincheiraram em um destacamento em Cotiza (norte de Caracas), onde foram detidos na mesma segunda-feira em que se amotinaram.

Em sua primeira alusão pessoal ao levante e posterior captura dos rebeldes, Maduro assegurou nesta terça-feira (22), pelo Twitter, que a Força Armada "deu incontáveis demonstrações de disciplina, coesão e preparo para enfrentar qualquer ameaça dos inimigos da Pátria".

O novo mandato de Maduro não foi reconhecido pelos Estados Unidos, por vários governos latino-americanos e pela União Europeia, que pretende lançar em fevereiro um grupo de contato internacional para buscar uma saída negociada para a crise, anunciou a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini.

- Anistia, a porta -

Há uma semana, o Congresso declarou Maduro um "usurpador", depois de ter assumido em 10 de janeiro um segundo mandato considerado ilegítimo por vários governos, e prometeu anistia aos militares, considerados a sustentação do presidente, e que somam 365 mil homens além de 1,6 milhão de milicianos civis.

O Congresso aprovou nesta terça-feira essa proposta, desafiando uma sentença da Justiça (de orientação governista) que ratificou a sentença judicial de 2016 que declarou o Legislativo em desacato e nulas todas as suas decisões.

"Não podem declarar inconstitucional o desejo de mudança de um povo", afirmou Guaidó, que acredita que o chamado do Parlamento está repercutindo nos militares e que o rápido levante de segunda-feira mostra do descontentamento da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB).

Para a especialista em temas militares Sebastiana Barráez, a anistia "pôs em alerta o poder estabelecido. Abre uma porta àqueles militares que estão cansados com o que acontece dentro da FANB", disse.

Embora a Força Armada garanta estar unida, segundo a ONG Controle Cidadão, uns 180 efetivos foram detidos em 2018, acusados de conspirar, uns 100.000 militares pediram baixa desde 2015 e mais de 4.000 desertaram da Guarda Nacional em 2018.

Dois generais estão entre os detidos por um suposto atentado contra Maduro em 4 de agosto, quando dois drones carregados com explosivos estouraram perto de um palanque onde o presidente chefiava um ato militar.

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