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Opositores sobem em um caminhão em Caracas no âmbito dos protestos contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em 2 de junho de 2017

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A oposição venezuelana tentou marchar neste sábado (3) até um setor carente do oeste de Caracas, levando panelas vazias para simbolizar a escassez de alimentos e denunciar a fome no país, mas militares dispersaram a mobilização com gás lacrimogêneo e jatos de água.

A marcha que reuniu cerca de mil pessoas não pôde sair de Montalbán, bairro de classe média, pois agentes da Guarda Nacional dispersaram os manifestantes, também usando rojões.

"Assassinos", gritavam alguns opositores, enquanto outros lançavam pedras e coquetéis molotov.

"Como agridem as pessoas assim?", questionou o deputado opositor José Manuel Olivares, que foi alvo de spray de pimenta lançado por policiais.

A mobilização deu continuidade aos protestos contra o presidente Nicolás Maduro, que começaram há dois meses e já deixaram 64 mortos.

Um homem de 28 anos morreu neste sábado, após ter sido baleado em uma manifestação em 11 de abril, no estado de Lara (oeste), informou a Procuradoria.

Segundo a oposição, este protesto representou uma "nova etapa" nas manifestações, que exigem eleições gerais para antecipar a saída de Maduro.

"Inclui a incorporação com força da agenda social e popular (...). Queremos ter presença em zonas vítimas de repressão", disse à AFP o deputado Miguel Pizarro.

A marcha deste sábado pretendia chegar a El Valle, que viveu uma noite de terror em 20 de abril, quando um panelaço e o bloqueio de ruas derivaram em uma batalha campal entre manifestantes e as forças de segurança. Estes distúrbios deixaram 11 mortos, e dezenas de lojas foram saqueadas.

Na sexta-feira em La Vega, outro bairro popular do oeste de Caracas, dezenas de pessoas protestaram durante horas, e houve confrontos com policiais e militares.

"Hoje, lutamos para que não haja mais nenhum morto por desnutrição e que não falte um prato de comida para ninguém", tuitou o deputado José Manuel Olivares.

A Venezuela atravessa uma dura crise econômica, que se intensificou em 2014 com a queda dos preços do petróleo e que se caracteriza por uma escassez aguda de alimentos e de remédios, além de uma inflação que poderia chegar a 720% em 2017, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Cerca de 9,6 milhões de venezuelanos - quase um terço da população - ingerem duas, ou menos, refeições por dia. A pobreza aumentou quase nove pontos entre 2015 e 2016, chegando a 81,8% dos lares, segundo a Pesquisa sobre Condições de Vida, realizada por um grupo de universidades.

Maduro assegura, porém, que, em 2016, a pobreza caiu de 19,7% para 18,3%, e a miséria, de 4,9% para 4,4%.

Em meio à crise, o presidente promove uma Assembleia Constituinte para reformar a Carta Magna, a qual oferecerá soluções econômicas e trará "a paz". Seus integrantes serão eleitos em julho.

A oposição rejeita essa proposta e diz que não participará do processo por considerá-lo "fraudulento", visto que - alega - beneficiará o chavismo para eleger mais membros com menos votos.

A procuradora-geral, Luisa Ortega, uma chavista histórica, pediu a Maduro na quinta-feira (1º) que retire a convocação para a Constituinte por considerar que esta agravará a crise. Pediu ainda a realização das eleições de governadores, programadas para dezembro deste ano e que já estão, na verdade, atrasadas há um ano.

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