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Opositores venezuelanos protestam em Caracas, em 10 de abril de 2017

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A oposição venezuelana mobilizou-se novamente em Caracas nesta segunda-feira, em seu quinto protesto contra o governo Nicolás Maduro no mês de abril, uma estratégia que eleva a tensão social e voltou a gerar distúrbios.

Centenas de pessoas permaneciam em Altamira, zona nobre da capital, enfrentando a polícia, respondendo às bombas de gás lacrimogênio com pedras, reportaram jornalistas da AFP no local.

Milhares de pessoas se concentraram na praça Brión (leste), de onde marcharam para a principal rodovia da cidade, mas a polícia os deteve com gás lacrimogênio.

Um grupo de jovens respondeu com pedras, enquanto o grosso da marcha recuou, alguns para o setor de Chacao, onde os enfrentamentos têm se concentrado.

Várias pessoas, incluindo um recém-nascido, foram evacuadas de uma clínica do bairro Las Mercedes, atingida por duas bombas de gás, denunciou o médico Luis Montañés a jornalistas.

O ministro do Interior, Néstor Reverol, anunciou que 18 pessoas foram detidas, enquanto o prefeito de Chacao, onde está Altamira, informou 12 feridos nos incidentes.

"Mantenho comunicação com as máximas autoridades para evitar o uso excessivo da força no controle das manifestações públicas", escreveu o Defensor do Povo, Tarek Saab, no Twiiter, que rejeitou o "lançamento do ar de objetos contundentes para dispersar manifestações".

A oposição denunciou o lançamento de bombas de gás de helicópteros e do alto de prédios do governo.

A deputada Delsa Solórzano disse que foi atingida por uma bomba de gás lacrimogêneo no peito.

Desde o início, em 1º de abril, a oposição pretende levar as marchas ao centro, reduto do chavismo e onde estão as sedes dos poderes públicos. A situação realizava neste local um dia de práticas esportivas.

"É uma luta de resistência: ver quem cansa primeiro, se nós de lutar ou eles de reprimir", disse Freddy Guevara, vice-presidente do Parlamento, à AFP na praça Brion.

Maduro, por sua vez, está nesta segunda-feira em Havana por ocasião de uma reunião de chanceleres da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), bloco de esquerda que lidera juntamente com Cuba.

O encontro apoiará o presidente, que denuncia um plano para depô-lo por parte da oposição, a Organização de Estados Americanos (OEA) e Estados Unidos.

"A Venezuela precisa de um governo legítimo", disse nesta segunda-feira o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, após se reunir com o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, que concordou.

As manifestações começaram em repúdio a duas sentenças com as quais o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que assumiu temporariamente os poderes do Legislativo e retirou a imunidade dos deputados, com a alegação de que a Câmara atuava em desacato a suas decisões.

Também exigem eleições gerais, respeito à autonomia do Legislativo e libertação de opositores presos.

O TSJ, ao qual a oposição acusa de deixar o Parlamento de mãos atadas por ordem de Maduro, anulou parcialmente as sentenças em meio a uma forte pressão internacional, que denunciou uma quebra democrática no país com as maiores reservas de petróleo do mundo e deu incentivo aos protestos.

Descontentamento social

Até o momento as manifestações deixaram um morto e dezenas de feridos e detidos, assim como danos em uma sede do TSJ - atacado no sábado - e em partes da zona leste da capital.

O governo afirma que a vítima fatal - um jovem de 19 anos - foi atingido por um tiro disparado por um guarda de trânsito nas proximidades de Caracas, em meio a um protesto no qual supostamente não participava.

No sábado, o ex-candidato de oposição à presidência Henrique Capriles, que acaba de ser inabilitado para exercer cargos públicos durante 15 anos, também denunciou um incêndio provocado na sede de seu partido, em meio aos distúrbios.

Os manifestantes denunciam a penúria em que vivem por causa da crise, que se agravou com a queda de preços do petróleo, gerador de 96% das divisas do país.

"Mentiroso"

Antes de viajar a Cuba, Maduro afirmou esperar ansiosos a convocação de eleições de governadores, uma das principais exigências da oposição. As eleições, que deveriam se realizar em 2016, foram adiadas para este ano e não têm data prevista.

Mas Guevara tachou de "mentiroso" o chefe de Estado, a quem acusou de não querer eleições "porque sabe que as perde. Vamos continuar pressionando até que ocorram todas: as de governadores, as quais nos devem; as de prefeitos, que são as que cabem este ano; e as presidenciais (previstas para 2018), que são as que a Venezuela mais precisa".

"Queremos eleições, não porque ele quer, mas porque tem que haver", informou à AFP Alejandro Navas, estudante de direito.

O colapso econômico pulverizou o apoio a Maduro, que venceu as eleições de 2013 sobre Capriles por estreita margem e cuja gestão sete em cada dez venezuelanos rejeitam atualmente, segundo o Venebarómetro.

Maduro, que atribui a crise a uma "guerra econômica", também advertiu que se seus adversários tomam o poder pela força serão derrotados e radicalizaria seu governo "ao nível mais profundo que a história tenha conhecido na América".

A oposição anunciou que após o dia desta segunda-feira voltará às ruas em 19 de abril para realizar o que, segundo Guevara, será a "mãe de todas as marchas" em protesto contra Maduro.den

O chavismo, por sua vez, respondeu com a convocação de uma "grande manifestação" em Caracas para o mesmo dia, quando se comemora o início da luta pela independência venezuelana.

"Vamos marchar em defesa da nossa soberania e independência, que ninguém nos deu de presente. Vamos marchar (...) para confluir no centro de Caracas em uma grande manifestação", disse em coletiva de imprensa Elías Jaua, dirigente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV, situação).

Enquanto isso, a pressão internacional continua. Nesta segunda-feira, a União Europeia expressou preocupação pela "escalada de tensões" e destacou que "a violência e o uso da força não resolverão a crise". Também questionou a sanção a Capriles.

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