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Armas em exibição em uma feira de esportes ao ar livre da Associação Nacional do Rifle, em Harrisburg, em fevereiro de 2017

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De mosquetes a metralhadoras, os americanos têm com as armas de fogo uma relação tão antiga, e complicada, como a do próprio país.

Essa relação íntima com as armas tem sido analisada depois do pior massacre civil da história recente dos Estados Unidos, que deixou 58 mortos em Las Vegas.

Os Estados Unidos surgiram após uma violenta rebelião contra a Inglaterra, marcada por uma terrível guerra civil, com uma população indígena dizimada, e foram construídos sobre os relatos de rudes heróis do Oeste selvagem.

As armas fazem parte da história da nação.

"Não acho que o nosso amor pelas armas seja único no mundo, mas claramente os americanos são fascinados pelas armas e amamos nossas armas", disse Adam Winkler, autor de "Gunfight: The Battle Over the Right to Bear Arms in America" (Troca de tiros: a batalha pelo porte de armas na América, em tradução livre).

"Acho que, em parte, poderia provir do fato de que somos um país que idealiza a fundação, na qual revolucionários armados decidiram lutar contra um governo tirânico", assegurou Winkler, professor de Direito Constitucional na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA).

"Também somos uma nação cuja identidade está muito mais vinculada a coisas como o Oeste selvagem e a fronteira, nos quais definitivamente havia uma cultura das armas", disse à AFP.

"A arma tem um lugar mais ou menos central na mitologia nacional", concorda A.J. Somerset, cujo livro "Arms: The Culture and Credo of the Gun" também analisa a posse de armas nos Estados Unidos.

"Toda a mitologia proveniente da revolução americana coloca o rifle no centro", opina Somerset, proprietário de armas e ex-membro das Forças Armadas do Canadá.

- 'A arma era uma ferramenta' -

"Em meados do século XIX tivemos uma súbita inovação em armas de fogo, como o revólver Colt, o rifle com carregamento pela culatra, que levou ao fuzil de repetição, o Winchester, e assim sucessivamente", assinalou.

"Esta revolução na tecnologia das armas de fogo coincidiu com o grande período da expansão para o oeste americano", disse Somerset em entrevista por telefone.

"E foi nesse ponto que o país começou realmente a mitificar a sua relação com as armas", acrescentou.

Atualmente há mais de 300 milhões de armas nos Estados Unidos - mais de uma por pessoa - e as armas de fogo estão envolvidas em cerca de 30.000 mortes por ano, dois terços das quais são suicídios.

Cerca de quatro em cada 10 americanos vivem em uma casa onde há uma arma, de acordo com um estudo divulgado em junho pelo Pew Research Center. Cerca de 67% das pessoas que possuem armas alegam que a própria proteção é o principal motivo para tê-las.

A maioria dos americanos acredita que ter uma arma é um direito garantido pela Segunda Emenda da Constituição.

Para os primeiros americanos "a arma era uma ferramenta", afirma David Courtwright, professor de História na Universidade do Norte da Flórida e autor de "Violent Land: Single Men and Social Disorder from the Frontier to the Inner City" (Terra violenta: homens solteiros e distúrbio social da fronteira ao interior, em tradução livre).

"Os lares da fronteira sem algum tipo de arma de fogo eram uma raridade e alguns acham que essa herança continua funcionando", disse.

- Temor de aumento da criminalidade -

Ainda que os faroestes de Hollywood e da televisão possam ter desempenhado um papel de romantizar a cultura das armas de caubóis, Courtwright e outros acreditam que o medo provocado pelo aumento no número de crimes iniciado na década de 1960 tenha um papel mais importante ao explicar a atual expansão da posse de armas.

"Não é fácil imaginar agora como estavam presentes em 1970 os temas vinculados ao crime e à Justiça penal", explica Winkler, professor da UCLA.

Ele explica que a Associação Nacional do Rifle (NRA), o poderoso lobby das armas, ajudou a vender aos americanos a ideia de que eles precisavam de uma arma para se proteger.

"Essa ideia se espalhou e o movimento pelo direito às armas se tornou uma força real na política americana", disse.

Efetivamente, o direito ao porte de armas e o controle destas é atualmente um dos pontos de discussão mais intenso nos Estados Unidos, e motivo de divisão entre partidos.

Cerca de 44% dos republicanos consultados em uma pesquisa do Pew Research disseram ter uma arma, contra 20% dos democratas.

Possuir armas é "um poderoso símbolo de identificação partidária", afirma Courtwright. "Trata-se de uma identidade, não somente se proteger das pessoas ruins".

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AFP