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Participantes da Marcha do Povo pelo Clima seguram cartazes em frente à Casa Branca, em Washington DC, em 29 de abril de 2017

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Seis meses depois da comoção que representou a eleição nos Estados Unidos de um presidente cético quanto à realidade das mudanças climáticas, os 196 signatários do histórico Acordo de Paris para limitar o aquecimento global retomaram nesta segunda-feira reuniões em Bonn para iniciar sua aplicação.

"Este acordo internacional é a única esperança de sobrevivência para os pequenos Estados insulares", declarou Thoriq Ibrahim, ministro de Meio Ambiente das Maldivas, em um comunicado publicado na véspera da reunião em Bonn.

Sua declaração reflete a grande preocupação dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, reforçada pela chegada ao poder de Donald Trump e sua decisão de não lutar contra o aquecimento do planeta.

O acordo de Paris prevê a atuação da comunidade internacional para limitar a elevação das temperaturas "abaixo de +2ºC" e se possível "abaixo de 5ºC" em relação aos níveis pré-industriais. Os compromissos atuais são insuficientes e conduzem a um aumento de +3ºC.

Nesta segunda-feira, enquanto começavam as reuniões técnicas sobre as normas de aplicação do acordo, multiplicavam-se nos corredores do centro de congresso internacional de Bonn as especulações sobre a saída ou permanência dos Estados Unidos no acordo.

"Todos esperamos a decisão final da administração americana", declarou Yvon Slingenberg, representante da União Europeia (UE).

"Haverá na terça-feira à noite uma reunião na Casa Branca sobre a questão, mas isso não quer dizer que vá haver um anúncio antes ou durante [a cúpula d]o G7", no final de maio, declarou em uma coletiva de imprensa Brandon Wu, da ONG Christian Aid.

Paula Caballero, especialista do World Resources Institute, considera que a "saída dos Estados Unidos criaria dificuldades, mas não seria algo insuperável nem mudaria os rumos da História".

Uma pequena delegação americana está presente em Bonn, liderada por Trigg Talley, o mesmo responsável sob o governo Obama.

Uma fonte do Departamento de Estado declarou à AFP que os Estados Unidos querem "assegurar que as decisões não vão prejudicar" sua política em favor da competitividade das empresas e do crescimento econômico.

China e Índia em primeiro plano

A União Europeia e 195 países são membros da Convenção sobre o Clima da ONU, depois da adesão dos Territórios Palestinos, em 2015.

Com exceção da Síria e da Nicarágua, todos assinaram o acordo e 144, que somam 83% das emissões mundiais, já o ratificaram.

Entre os grande emissores de gases de efeito estufa, apenas a Rússia não ratificou o texto, apesar de tê-lo assinado em Paris. A Rússia é o quinto maior emissor depois de China, Estados Unidos, União Europeia e Índia.

É pouco provável que o faça sob a presidência de Vladimir Putin, que, em março, declarou que é impossível impedir o aquecimento climático vinculado, segundo ele, aos "ciclos globais da Terra".

Os governos russo e americano ficam em segundo plano na luta climática, mas a China e a Índia reafirmaram seus compromisso, o que também permite reduzir a poluição e sua conta petroleira.

"A China está sob grande pressão em nível doméstico para reduzir a poluição do ar produzida pelo carvão e combustíveis fósseis, e tem grande interesse em ser líder dos mercados das novas tecnologias", explica Alden Meyer, da "Union of Concerned Scientists" (União dos Cientistas Preocupados).

"Nova Délhi também vê grandes vantagens em seus objetivos de desenvolvimento de energias renováveis para melhorar a qualidade do ar e de reduzir as importações do petróleo", acrescenta.

Qualquer ideia de renegociar o texto, após anos de discussões, foi firmemente refutada nas intervenções desta segunda-feira à tarde. O acordo "deve ser respeitado e não deve ser renegociado", declarou Masud Rezvanian, representante iraniano.

Otimista, o ministro das Relações Exteriores do Marrocos, Salaheddin Mezuar, avaliou que seria "difícil", inclusive "insensato" da parte de Trump, "ir contra a opinião pública" de seu país "e da vontade da comunidade internacional".

"A trasição para uma economia de baixo carbono progride em todas as partes do planeta", destaca Laurence Tubiana, diretora-geral do European Climate Foundation e ex-negociadora francesa, citando como exemplo o fato de a Índia ter como meta "100% de veículos elétricos em 2030".

Em Bonn, os países têm dez dias para elaborar um manual sobre o acordo de Paris, que entrou juridicamente em vigor, e cujas disposições, muito gerais, devem ser detalhadas antes do fim de 2018.

As Ilhas Fiji vão presidir, em novembro de 2017, a COP23, que por razões de logística se celebra em Bonn, sede da Convenção sobre o Clima.

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