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David Vallenilla, pai do estudante morto com tiro por um soldado da Guarda Nacional durante protesto contra o governo, em entrevista à AFP em Caracas, em 27 de junho de 2017

(afp_tickers)

Com a voz entrecortada, David Vallenilla, pai do jovem de 22 anos que morreu com um tiro à queima-roupa de um militar em um protesto de Caracas, exigiu, em entrevista à AFP, justiça ao presidente Nicolás Maduro, de quem foi chefe quando trabalhava no metrô.

Seu filho, de mesmo nome, recebeu um tiro de escopeta à queima-roupa quando protestava na última quinta-feira com outros jovens que lançavam pedras e coquetéis molotov contra a base aérea de La Carlota, no leste de Caracas.

Nesse mesmo dia, Maduro advertia que estava proibido o uso das armas de fogo para o controle dos protestos, que já deixaram 76 mortos em três meses. Apenas "água e gás lacrimogêneo", afirmou.

De acordo com o governo, foi iniciado um processo contra o militar da Aviação que disparou, além de outros possíveis responsáveis.

Vallenilla, que se aposentou do Metrô em 2007 e agora, aos 56 anos, é advogado, disse em entrevista à AFP "ainda não perdoar" a morte de seu único filho, que recentemente havia se formado em Enfermagem e a quem os pais queriam mandar para a Espanha.

- "Lutar por algo diferente" -

- Como era David?

Hiperativo, respeitável e muito apaixonado. Admiro muito essa valentia de não medir até onde se pode chegar. São os jovens os que têm esse valor interior de sair para lutar por algo diferente.

- Ele pertencia a algum partido político?

Jamais, mas não concordava com o que está acontecendo neste país. Ele conheceu somente uma forma de governo.

Nós amamos beisebol, é uma paixão. As divergências que os venezuelanos tinham eram só no esporte. Lamentavelmente, na atualidade, em nossos lares há divergências, distanciamento entre irmãos, pela política.

- Vocês tinham divergências políticas com ele?

Jamais. Posições extremas, jamais. Identificação com algum partido político, jamais. Inconformidade com o que estamos vivendo, sim, tínhamos.

- Você e a mãe dele sabiam que ele ia a passeatas?

Todos os dias dizíamos a ele: "saia do trabalho e vá direto para casa". E ele dizia: "pai, fica tranquilo". Mas ia.

- "Não estou preparado para vê-lo" -

- Como enfrenta a avalanche de vídeos e fotos que circulam nas redes sociais do momento da morte?

Não vi nenhum. Tudo o que foi dito a mim foi por meus parentes, mas estou certo de que não me disseram tudo. Não quis ver esse momento, não estou preparado para vê-lo.

- Como qualifica a atuação das autoridades?

O discurso das autoridades máximas é: "águas e gases". Com água e gás não mataram o meu filho, não se não tivessem atirado quatro balas nele. De chumbo, não de plástico. Eu vi.

A quem disparou, eu digo: Por que não atirou em seus pés para que caísse? Mas atirou em seu peito, no coração, no fígado e no pulmão. Sabia que causaria a sua morte.

- O que aconteceu com as investigações?

Os efetivos do CICPC (Polícia Científica) queriam levar o corpo. Infelizmente o Ministério Público se impôs. Está na cadeia de custódia.

- "Nicolás: há um povo com fome" -

- Em que época conheceu o presidente?

De 1994 a 2000. Falo dele como "Nicolás", companheiro de trabalho, assim o conheci, ele era operador do transporte de superfície (do Metrô de Caracas, uma espécie de ônibus integração), eu era o supervisor. Tivemos uma relação de trabalho, nunca tive nenhum problema com ele.

Nicolás como colega de trabalho foi um homem muito equilibrado, com quem podia conversar. Por isso lhe peço para conversar. Me disseram que ia me ligar, mas não me ligou.

Nicolás: não quero pensar que está nos enganando, mas que não está levando a sério (os policiais e militares). Espero que estejam detidos não só o responsável, mas os seus superiores, aqueles que deixaram que ele tivesse essa escopeta com munição real.

- Vê a diferença entre o colega de trabalho e o presidente?

Era um homem que lutava para melhorar as condições de seus companheiros. Entretanto, agora, sei que não é fácil.

Quero dizê-lo: Nicolás, há um povo que está sofrendo e você deve se sentar e pensar o que é preciso para mudar. Esqueça-se do cargo. Escute! Não é um grupinho, quase toda a Venezuela não encontra comida, remédios. Temos um país rico, mas um povo com fome.

- Você o perdoou?

Apesar de não ser rancoroso, preciso de tempo. E nesse momento não perdoo. Não perdoo a ele (o militar que atirou), nem quem lhe deu uma arma para matar, e se o responsável for um coronel, um ministro ou o presidente... não o perdoo, nem por David José, nem por nenhum dos que morreu.

AFP