Nas primeiras horas desta terça-feira, as portas abertas da catedral de Notre-Dame de Paris revelaram um cenário desolador: o telhado e sua estrutura espalhados pelo chão, em um monte de detritos calcinados.

As mangueiras dos bombeiros continuavam a molhar o interior do monumento para resfriar as paredes e evitar a retomada do fogo, enquanto que, no horizonte, o vermelho do amanhecer lembrava o brilho das chamas, que durante toda a noite devastaram a catedral.

Em volta da igreja, cujas paredes, estruturas de pedra e alguns vitrais resistiram ao desastre, pessoas chegavam lentamente a pé ou de bicicleta. A mesma expressão séria, a mesma emoção nos rostos destas testemunhas que vieram ver por si mesmos e prestar homenagem ao monumento.

"Estou devastada, mesmo não sendo mais católico há muito tempo. Este é o lugar onde fui batizada", murmurou Claire, de 88 anos.

Ela se sentou em um banco de pedra, na margem do Sena, de frente para a fachada sul. Sob um largo chapéu de feltro, seus olhos azuis se embaçaram com as lágrimas. "Para mim, este lugar é o centro do mundo. Paris é o centro do mundo, e Notre-Dame é o centro do centro. É uma maravilha arquitetônica, cultural, ela carrega a história da França e além. É a história da minha vida com oitocentos anos a mais".

O quais do rio Sena foi se enchendo gradualmente de espectadores, equipes de televisão e fotógrafos do mundo inteiro.

- "Por favor, Victor Hugo!" -

Christophe Provot, de 25 anos, estudante de história da arte e católico fervoroso, passou a noite a caminhar em volta do prédio em chamas, rezando, compartilhando e cantando com estranhos canções religiosas.

"Cheguei ontem às dez da noite, quando ouvi na TV que talvez não pudéssemos salvá-la", disse ele, com a pele pálida e os olhos febris.

"Eu disse para mim mesmo: não é possível, tenho que ver com meus próprios olhos. Com uma amiga, nos juntamos a grupos de oração. Encontramos outras pessoas. Isso nos une, temos esperança", acrescentou.

"E o nosso apelo foi ouvido: ela vai ficar de pé. Olhe, esta manhã, ela ainda está lá. O telhado se foi, os danos são enormes, mas as paredes aguentaram e é isso que conta. E com a claridade da manhã vemos que está em melhores condições do que temíamos esta noite".

Aurora, uma italiana de 33 anos, ilustradora de uma startup parisiense há cinco anos, acordou às seis, subiu em sua bicicleta e veio "como que para homenagear um velho parente doente".

"Ontem à noite, uma colega gritou: 'Victor Hugo, por favor, apague o fogo do céu'", contou. "Notre-Dame é como a Torre Eiffel, é como a minha avó. Como se em Roma o Coliseu tivesse queimado. Eu tinha que vir".

Atracada sob uma ponte, a principal bomba do corpo de bombeiros leva a água do Sena que sobe até o pátio. Os bombeiros dão a volta no prédio, descansando em grupo depois de uma noite sem dormir.

No topo da Torre Sul, com um capacete prateado na cabeça, um deles se inclina para fora. Ele coloca a mão em um dos companheiros de Quasimodo, uma gárgula de pedra inclinada sobre o abismo do que era o telhado.

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