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Embarcação com migrantes e refugiados durante operação de resgate, na costa da Líbia, em 5 de novembro de 2016

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Na Itália, a questão de se os navios particulares de resgate de migrantes estão agindo em parceria com os traficantes desatou um agitado debate, alimentado pelas polêmicas declarações de um magistrado e pelas reações dos políticos.

A polêmica vem se desenrolado há varias semanas, quando o procurador de Catania, Carmelo Zuccaro, se questionou em fevereiro sobre a atuação dos barcos privados que resgatam migrantes na costa da Líbia, junto com a Guarda Costeira italiana e os navios militares ativos na zona.

Segundo a Guarda Costeira, as ONGs resgataram 26% dos migrantes em 2016, sem contar as de menor porte, que distribuem coletes salva-vidas, acalmam os resgatados e oferecem atenção médica de urgência.

Na prática, as ONGs ocuparam, com meios e formas para agir, o lugar dos navios de carga, que passaram a se encarregar de 24% dos regastes em 2014 para 8% em 2016.

A polêmica ganhou força nos últimos dias, depois que Zuccaro assegurou à imprensa que tinha "provas" de contatos ente traficantes e ONGs, deixando de lado organizações mais conhecidas como Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Save the Children.

O ministro da Justiça, Andrea Orlando, pediu ao procurador que se expresse, antes de tudo, "por meio de suas investigações", enquanto o Conselho Superior da Magistratura terá que verificar se Zuccaro foi longe demais.

No sábado, o ministro das Relações Exteriores, Angelino Alfano, declarou estar "100% de acordo" com o procurador "porque ele levantou uma verdadeira questão".

O chefe de governo, Paolo Gentiloni, afirmou que "se a magistratura tem informações que possam utilizar e que sejam críveis", o Executivo as acatará. "Dito isto, para nós, a atividades das organizações de voluntários é valiosa e bem-vinda", acrescentou.

As ONGs, por sua vez, reagiram de forma furiosa, afirmando que atuam unicamente para salvar vidas em uma rota migratória que deixou 4.500 mortos no ano passado e 1.000 ao longo de 2017.

"É uma polêmica estéril. A verdade é que ninguém quer ajudar essas pessoas. Querem criminalizar a solidariedade", declarou Regina Catambrone, cofundador da Moas, à agência de notícias católica SIR.

"As ONGs de resgate, cúmplices dos traficantes? É como dizer que os remédios são cúmplices das doenças", reagiu o escritor Erri de Luca, que passou duas semanas em um barco do MSF.

Entretanto, em um país onde já desembarcaram mais de 500.000 pessoas em três anos, sem que pareça que o fluxo irá diminuir, as dúvidas do procurador têm grande importância.

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