AFP

O papa Francisco cumprimenta o imã sunita de Al-Azhar, no Cairo, no dia 28 de abril de 2017

(afp_tickers)

Em sua visita ao Egito, o papa encontrou na respeitada instituição Al Azhar um apoio contundente para sua mensagem de paz, mas esta autoridade islâmica, considerada um escudo diante do extremismo, é acusada por seus detratores de ser parte do problema.

A Al Azhar está no centro de uma luta entre as autoridades políticas e religiosas desde que o presidente egípcio, Abdel Fatah al Sisi, lançou uma campanha de reformas de cunho religioso.

Sisi, ex-chefe do exército que depôs seu antecessor islamita em 2013, considera que os extremistas não foram suficientemente questionados no campo teológico.

"Ele acredita que as ideias extremistas se infiltraram completamente nas sociedades muçulmanas, que são latentes", mas poderiam provocar uma onda de devastação, afirmou, sob a condição de ter a identidade preservada, um membro de uma delegação estrangeira que se reuniu com o chefe de Estado.

Reticências

A Al Azhar e seu grande imã, Ahmed al Tayeb, aprovaram o apelo de Sisi, ainda que de forma discreta.

A prestigiosa instituição, que tem quase mil anos de história, dirige uma universidade e tem uma rede de escolas associadas. Milhares de estudantes vêm de lugares tão distantes quanto a China para receber formação de teologia e poder voltar a seus países como clérigos.

Os líderes deste tradicional reduto do Islã sunita odeiam profundamente os movimentos jihadistas inspirados na corrente religiosa do salafismo, predominante na Arábia Saudita.

Mas muitos altos funcionários e professores da Al Azhar veem negativamente a tentativa de Sisi de reformar o pensamento islâmico. A forma como impulsionou estas mudanças chegou a escandalizar muitos.

"Por deus, vou argumentar contra vocês diante de deus no dia do juízo final", disse o presidente em um discurso aos clérigos em 2015, no qual reforçou a necessidade de renovação.

"Os altos cargos religiosos, não todos, mas em sua maioria, são reticentes a estas ingerências, ao fato de que alguém de fora venha a estipular como a religião e o discurso religioso têm que funcionar", disse H.A. Hellyer, cientista político do centro de reflexão americano Atlantic Council.

Em uma reunião com um membro de outra delegação estrangeira, "Tayeb ironizou abertamente a ideia de uma reforma religiosa promovida por Sisi", disse à AFP este membro, que pediu para ter sua identidade preservada. Para ele, "o desemprego e as desigualdades são o problema".

Os apelos de Sisi animaram os detratores da Al Azhar, tanto os seculares quanto os partidários de uma modernização. Também tiveram eco nos clérigos que buscam harmonizar-se com o presidente.

Um deles, Mohamed Mojtar Gomaa, ministro que se encarrega dos bens religiosos, que administra as mesquitas, decidiu impor que o sermão semanal das sextas-feiras seja posto por escrito para erradicar os discursos extremistas, em sintonia com as petições de Sisi.

Mas a Al Azhar se rebelou, forçando Gomaa a voltar atrás. Depois, o próprio Sisi se desmarcou da iniciativa.

Programas arcaicos?

Os detratores reformistas da Al Azhar também foram incentivados pelos chamados de Sisi. Um deles, Islam el Behairy, atacou os livros canônicos sunitas, considerando que são uma inspiração para os extremistas.

Behairy e outros ressaltam que os manuais clássicos de jurisprudência islâmica usados na Al Azhar, que contêm afirmações arcaicas com relação à escravidão, às mulheres e aos não muçulmanos, podem parecer chocantes para um leitor moderno.

Para os professores, seus estudantes entendem que estes textos foram escritos em uma época diferente.

Depois que estes comentários geraram indignação na Al Azhar, Behairy terminou preso por "insulto à religião". Sisi acabou distanciando-se dele.

A tensão voltou a subir em janeiro quando o presidente pediu aos dignatários que reformem o procedimento de divórcio, para terminar com a prática islâmica de decretar as separações em processos orais.

A Al Azhar negou-se categoricamente.

A pressão acentuou-se ainda mais depois dos atentados do grupo Estado Islâmico (EI) contra igrejas coptas em dezembro e novamente em abril.

Vozes críticas da Al Azhar e de Tayeb afirmaram em assembleias e na mídia que a organização não conseguiu contrabalançar o discurso extremista.

O deputado Mohamed Abu Hamed propôs um projeto de lei para limitar os mandatos do grande imã, que atualmente pode ficar em seu posto todo o tempo que quiser.

"Descobrimos que o programa da Al Azhar e de suas instituições continha muitas ideias que podem levar à violência ou, inclusive, incitar a violência", disse o representante à AFP.

A Al Azhar rejeita estas acusações, citando as conferências que organiza para contrabalançar o extremismo e o grupo que instalou para monitorar esta problemática.

"Entre os criminosos que cometeram estes crimes, não há nenhum que tenha estudado, um único dia, na Al Azhar", argumentou Abas Shuman, segundo na hierarquia, em entrevista a um jornal.

AFP

 AFP