O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, rejeitou nesta quinta-feira (12) as críticas recebidas pela publicação de um relatório sobre as consequências caóticas de um "Brexit duro" e as acusações de que teria ocultado da rainha seus motivos para suspender o Parlamento.

Forçado pelo Legislativo, um dos últimos golpes aplicados ao Executivo antes de entrar em recesso por cinco semanas, o governo de Johnson tornou público na quarta à noite um documento elaborado em segredo para se preparar para os efeitos de um Brexit sem acordo.

Intitulado Operação "Yellowhammer" (nome de um pequeno pássaro) e datado de 2 de agosto, o documento prevê graves congestionamentos nos portos britânicos, os quais poderão levar à escassez de alimentos frescos e de remédios.

O informe relaciona perturbações em 12 setores-chave: desde o abastecimento de água aos transportes e às fronteiras, passando pela possibilidade de distúrbios de ordem social.

"Protestos e contraprotestos podem ocorrer em todo Reino Unido e obrigariam o uso de uma quantidade importante de recursos policiais. Há risco de distúrbios públicos e tensões comunitárias", diz o texto.

Em caso de um Brexit brutal, até 85% dos caminhões britânicos podem enfrentar problemas na passagem dos controles aduaneiros franceses, o que provocaria uma queda de "40% a 60% do nível atual" de circulação de mercadorias em um país que importa muitos dos alimentos que consome.

Essas perturbações podem durar três meses e impactar o abastecimento de medicamentos, ou de produtos para o tratamento de água.

Boa parte do documento já era conhecida, porque foi vazado pelo jornal "Sunday Times" em agosto. Isso não evitou, porém, duríssimas críticas ao governo, que alega ter feito preparativos desde então para amenizar esses efeitos.

"Este documento é apenas a ponta do iceberg", afirmou Tom Brake, encarregado do Brexit no opositor Partido Liberal-Democrata.

"Se o senhor Johnson não tivesse fechado o Parlamento, os deputados o teriam freado", acrescentou.

- Mentiras para a rainha -

O polêmico primeiro-ministro surpreendeu o país no final de agosto, ao anunciar que havia pedido à rainha Elizabeth II a suspensão das atividades parlamentares de meados de setembro a 14 de outubro, duas semanas antes do Brexit. A medida se tornou efetiva na madrugada de terça.

Johnson justificou sua decisão pela necessidade de elaborar e apresentar seu programa de política nacional, uma prática habitual quando há mudança de governo.

Seus opositores denunciam que seu verdadeiro objetivo era impedir que se evitasse um Brexit sem acordo e que usou a monarca - obrigada pela Constituição a agir segundo o conselho de seu premiê - de forma enganosa.

Mentiu para a rainha? Era a pergunta dos jornalistas nesta quinta-feira, durante uma visita do premiê a um antigo navio de guerra ancorado no Tâmisa.

"Claro que não!", respondeu Johnson, taxativamente.

Na véspera, três juízes de uma Corte de Apelação escocesa consideraram, por unanimidade que o conselho dado à rainha levou a uma suspensão "ilegal". Um tribunal inglês havia sentenciado o contrário na semana passada. Agora, ambas as decisões serão examinadas na próxima terça pela Suprema Corte.

Um tribunal da Irlanda do Norte também se pronunciou a favor do governo nesta quinta, em uma terceira ação apresentada em relação a Belfast.

"A Alta Corte da Inglaterra está de acordo conosco, mas a Suprema Corte terá de decidir", afirmou Johnson.

E, sobre a "Operação Yellowhammer", garantiu que "se trata de um cenário do pior caso possível, para o qual os funcionários obviamente têm que se preparar", mas "estamos tentando alcançar um acordo com os nossos amigos europeus e tenho esperança de que façamos isso em torno de 17, ou 18 de outubro", data do próximo Conselho Europeu.

Seu negociador-chefe para o Brexit, David Frost, está em Bruxelas desde quarta-feira.

"O Reino Unido apresentou ideias em matéria de alfândega e produtos manufaturados e tivemos mais conversas sobre a declaração política" que esboça as linhas gerais do que deve ser a futura relação entre ambas as partes, afirmou um porta-voz britânico.

"Voltaremos a nos reunir na sexta-feira", acrescentou.

O governo Johnson anunciou ainda que, no final de agosto, 1,3 milhão de cidadãos europeus - dos mais de 3 milhões que vivem no país - pediram o "estatuto de residente permanente" para continuar vivendo no país nas mesmas condições após o Brexit.

O Brexit foi aprovado por 52% dos britânicos, em uma consulta realizada em 2016. O país deveria ter deixado a UE em 29 de março passado. Diante da rejeição do Parlamento ao acordo de divórcio negociado com Bruxelas, a data acabou sendo adiada duas vezes.

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