Os protestos de quarta-feira (15) em todo Brasil devem servir de advertência para o presidente Jair Bolsonaro sobre uma crise de governabilidade criada por seu próprio governo em menos de cinco meses de gestão, afirmam os analistas.

O anúncio de bloqueios dos fundos de financiamento para a Educação levou centenas de milhares de pessoas em todo o país para as ruas, em cenas que para muitos brasileiros evocam os protestos de 2013 contra o aumento dos preços dos transportes.

Na quarta-feira também foram ouvidas inúmeras reivindicações contra a reforma previdenciária e a liberalização do porte de armas, peças essenciais do programa eleitoral do ex-militar.

"Estas manifestações enfraquecem o governo. Ele já vinha sozinho se enfraquecendo com brigas internas, mas elas acontecem pelo fato de o governo provocar a sociedade...", disse à AFP Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A comunidade acadêmica ficou revoltada quando o ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou o bloqueio de parte do orçamento de três universidades que "promovem balbúrdia" acolhendo debates com personalidades de esquerda.

Após ser criticado pelo caráter ideológico da medida, o ministro ampliou o "contingenciamento" a todas as instituições federais de ensino.

- Risco de 'tempestade perfeita' -

Segundo Couto, o governo Bolsonaro, que vive em permanentes marchas e contramarchas, "caminha na direção de se tornar inviável".

"Temos uma economia paralisada, as ruas mais mobilizadas, perda de apoio no Congresso. É a tempestade perfeita para a queda do presidente", destaca.

"Só falta um escândalo envolvendo o governo, que poderia vir das relações da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro", se aventura o cientista político, que acredita, no entanto, que um ponto sem retorno ainda não foi alcançado.

Muitos aliados aconselham Bolsonaro a sair do clima de campanha adotando medidas que não satisfaçam apenas seu eleitorado mais radical.

Mas esse momento não parece ter chegado ainda.

O presidente tratou os manifestantes de quarta-feira como "idiotas úteis", usados como "massa de manobra" pelos partidos de esquerda.

"A tendência [de Bolsonaro] é fechar a porta ao diálogo e radicalizar ainda mais", avaliou Couto.

A agitação nas ruas se soma às divisões da base aliada no Congresso, onde avança com dificuldade a reforma da Previdência, apresentada como essencial para recuperar a confiança dos investidores e reduzir o déficit público.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, reduziu na terça-feira a previsão de crescimento econômico em 2019 de 2,2% para 1,5% e pediu aos legisladores que acelerem as reformas, alertando que o Brasil está "no fundo do poço".

- O despertar da oposição -

A crise na Educação recordou aos brasileiros a existência da oposição, praticamente ausente desde a vitória eleitoral de Bolsonaro, em outubro passado, avalia Thomaz Favaro, analista político da consultoria Control Risks.

"As manifestações devem empoderar a oposição e incentivá-la a adotar uma postura mais contundente contra o governo", mas o processo deve ser lento, diante das divergências entre os partidos de esquerda, destaca.

"O governo está fraco, mas a oposição também", concorda Couto.

Favaro acredita ser importante manter a atenção nas ruas porque a sociedade brasileira, que recuperou a democracia em 1985, "já legitimou os protestos como ferramenta".

O analista referia-se às gigantescas concentrações em 2013 frente ao aumento dos transportes e, em 2016, as que apoiaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O Movimento Brasil Livre (MBL), que teve um papel importante nos protestos que levaram à destituição de Dilma, também acredita no renascimento da oposição a partir de uma crise provocada pelo próprio governo.

"O governo se embananou todo com a história da balbúrdia, ficou uma semana em cima de uma narrativa falsa e a esquerda soube aproveitar, mesmo que com distorção, a oportunidade pra fazer uma de suas maiores mobilizações de rua desde o começo do impeachment", tuitou a organização.

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