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Protestos aumentam na Bolívia após vitória eleitoral de Evo Morales

Apoiadores do partido Movimento Ao Socialismo (MAS) do presidente boliviano Evo Morales recebem gás lacrimogênio lançado pela polícia durante confrontos com grupos opositores leais ao ex-presidente Carlos Mesa, em Santa Cruz, em 28 de outubro de 2019 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 29. outubro 2019 - 05:30
(AFP)

A onda de protestos contra a polêmica reeleição de Evo Morales aumentou na Bolívia, onde o governo propôs nesta terça-feira (29) ao candidato opositor Carlos Mesa que se junte a uma auditoria internacional da eleição presidencial para tentar deter a violência nas ruas.

Depois de um dia que deixou pelo menos 30 feridos, incluindo alguns baleados, o vice-presidente Álvaro García propôs a Mesa, o "candidato perdedor, a participar da auditoria" das eleições de 20 de outubro, que estarão nas mãos dos Organização dos Estados Americanos (OEA).

Mesa, um centrista que foi presidente entre 2003 e 2005, disse pouco depois que só aceitará a auditoria "se (Morales) estiver disposto a não aceitar o resultado do Supremo Tribunal Eleitoral" enquanto a auditoria estiver sendo realizada e se ele reconhecer um "caráter" vinculante".

A resposta veio pouco depois pelo ministro da Comunicação, Manuel Canelas: "Nós nos submetemos ao que a auditoria concluir".

García explicou que a auditoria, que foi acordada na semana passada pelo governo e pela OEA e que ainda não tem data, será acompanhada "por México, Paraguai e Peru".

O pedido para que Mesa aceite a auditoria veio depois de Morales ter acusado os apoiadores do ex-presidente de pretenderem cercar o gabinete presidencial na terça-feira no contexto de protestos iniciados na semana passada em grande parte do país para denunciar fraudes eleitorais.

A oposição "decidiu concentrar e cercar a Casa Grande do Povo", como Morales chama a sede do Governo, alertou o presidente na noite de segunda-feira diante de uma concentração maciça de trabalhadores e camponeses, que comemoraram sua vitória eleitoral em El Alto, cidade vizinha de La Paz.

Para Morales, no poder desde 2006, os protestos fazem parte de um plano de "golpe" contra ele que a oposição teria decidido executar no máximo até esta terça-feira.

Mesa, que pede a anulação das eleições, rejeitou essas acusações e desafiou o governo na segunda-feira em uma grande manifestação, especialmente de jovens estudantes universitários, em um bairro abastado de La Paz: "Aqui estou eu, ou vou para a cadeia ou vou para a presidência ".

"Amanhã (terça-feira) estaremos em greve aqui (em La Paz), em Santa Cruz, em Cochabamba e em todo o país. Aqui estamos, não desistimos", disse Mesa.

O líder direitista do comitê cívico de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, aliado de Mesa, também pediu a continuação da greve, com bloqueios nas estradas e manifestações nas ruas, iniciadas na quarta-feira passada.

O poderoso comitê cívico de Santa Cruz (CCSCZ), leste da Bolívia, destacou nesta terça que os conflitos sociais no país só serão resolvidos se o presidente Evo Morales anular as questionadas eleições das quais saiu vencedor, pois nelas houve fraude.

"Eu penso que o presidente poderia dar a solução para o problema, anulando o processo eleitoral. É o mais coerente porque não só houve fraude na eleição para presidente, mas também há fraude na eleição para deputados e senadores", afirmou o presidente del CCSCZ, Luis Fernando Camacho.

- "Cercar" La Paz -

Os opositores questionam o escrutínio das eleições de 20 de outubro, que previam inicialmente uma votação, mas depois de um silêncio de 20 horas na contagem rápida de votos, anunciaram resultados que prenunciavam uma vitória de Morales no primeiro turno, o que gerou suspeitas.

A autoridade eleitoral acabou confirmando a vitória do presidente dias depois.

Em La Paz, manifestantes da oposição bloquearam ruas e entraram em confronto com grupos de mineradores e camponeses pró-governo de áreas andinas que chegaram para cercar a cidade, sede dos poderes executivo e legislativo, e cortaram o suprimento de alimentos e o fornecimento de água potável.

"Estamos pedindo que nossas bases venham para aumentarmos essa cerco. Não vamos aceitar um golpe de Estado. Vamos defender a democracia, o respeito ao voto indígena, camponês e intercultural contra o racismo", disse Henry Nina, líder sindical governista.

Os aliados de Morales deram um prazo de 24 horas aos opositores para abandonar o protesto.

Os bloqueios de rua mais drásticos estão na parte sul de La Paz, onde vivem as classes média e alta, na maioria contrárias a Morales. Lá a luta racial também foi exacerbada, em um país onde as famílias mais pobres são indígenas.

"As classes ricas estão expondo suas verdadeiras lutas", disse Manuel Morales, da influente plataforma Conade, que reúne personalidades como o reitor da universidade estadual, Waldo Albarracín, ou o ex-defensor público Waldo Villena e organizações políticas da oposição, principalmente centristas.

"No longo prazo, o que irá se impor é esse movimento nacional de defesa da democracia", disse o líder do Conade.

O ministro do Interior, Carlos Romero, disse que os apelos de Mesa "para tomar as instituições públicas, de tirar o governo" constituem uma "convocação de golpe de Estado".

"Antes os golpes eram com os militares (agora são) institucionais", disse.

A missão de observação da OEA, da ONU e da União Europeia expressou seu apoio a um segundo turno para resolver as diferenças.

A ONU fez um "apelo urgente" à pacificação na Bolívia, após a escalada da violência nesta terça-feira.

"As Nações Unidas fazem um apelo clamoroso e urgente aos atores políticos, setores sociais e todos os bolivianos para que reduzam as tensões e rejeitem todos os atos de violência nestes tempos difíceis que o país enfrenta", diz um comunicado do escritório da ONU em La Paz, entregue à AFP.

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