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Quando a covid-19 causa estragos na saúde mental

Paciente no jardim Centro Psiquiátrico Bois de Bondy, em 7 de maio de 2020, na França afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 08. janeiro 2021 - 15:13
(AFP)

Depois de sofrer de depressão por mais de 15 anos, a alemã Lena Ulrich achou que havia encontrado um certo equilíbrio, até que a pandemia do coronavírus chegou com sua série de restrições na vida social.

"Tinha estruturado e organizado minha vida de uma forma que funcionava bastante bem para mim (...) Tudo desmoronou relativamente rápido (...) e acabei com um episódio depressivo bastante forte e longo", desabafa esta moradora de Colônia, de 37 anos.

Ela é uma das muitas pessoas, cujos transtornos psiquiátricos pioraram com a crise sanitária resultante da pandemia do novo coronavírus.

Na Alemanha - assim como em outros lugares -, seu acompanhamento médico se viu muito afetado pelo fechamento de estruturas de apoio, devido às medidas anticovid-19: primeiro em março e, novamente, desde dezembro, com a segunda onda epidêmica no país.

Embora vários estabelecimentos tenham proposto serviços on-line, ou por meio de aplicativos de mensagem por celular, os resultados não são muito conclusivos neste setor, onde as trocas diretas continuam sendo primordiais.

- Excesso de isolamento, ou de contato

De acordo com a Fundação Alemã de Ajuda às Vítimas da Depressão (DDH), as pessoas com essa doença vivenciaram as restrições da primavera boreal (outono no Brasil) com mais do que o dobro de estresse da população média.

Mais da metade delas também sofreu restrições no acesso aos tratamentos, acrescenta.

As clínicas psiquiátricas ambulatoriais, os centros de aconselhamento e os serviços de prevenção do suicídio receberam mais pedidos de ajuda este ano, inclusive a distância, de acordo com Dietrich Munz, que dirige a Câmara Alemã de Psicoterapeutas.

"Agora, há toda uma série de estudos que mostram que o estresse mental causado pelas medidas restritivas também pode levar a uma doença mental", explicou à AFP.

Georg Kepkowski, de 58 anos, lembra como foi ruim: é como se "os alicerces que me ajudaram a permanecer estável tivessem vido abaixo".

"O contato social com meus amigos e familiares era muito limitado. Eu me sentia isolado e, por isso, entrei em depressão", afirma.

Nada surpreendente, segundo Munz, que afirma que o isolamento social pode deteriorar a saúde psicológica.

"As pessoas são seres sociais. Isso significa que buscamos e precisamos de trocas interpessoais, sejam pequenas conversas no trabalho, sejam confidências com amigos", completou.

O governo alemão prolongou o confinamento parcial do país até o final de janeiro. As autoridades pedem à população que saia de casa apenas em caso de extrema necessidade e que, neste inverno (verão no Brasil), renuncie às excursões de fim de semana às montanhas.

Também há o outro lado.

Ficar fechado durante dias, no mesmo espaço, com as mesmas pessoas, devido ao teletrabalho e à restrição das saídas, também pode aumentar a ansiedade.

"Excesso de proximidade também pode provocar estresse psicológico", lembra Munz, que afirma que "reduzir a troca exclusivamente à família é difícil, se houver muito poucas oportunidades para se isolar".

Em uma pesquisa recente da seguradora de saúde Pronova BKK, 75% dos 154 psiquiatras e psicoterapeutas entrevistados acreditam que os casos de doenças mentais vão aumentar nos próximos 12 meses.

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