Nem alegria, nem amargura, apenas o desejo de voltar para casa. É assim que Mikhail Kojukhov se lembra do último comboio soviético que abandonou o Afeganistão há 30 anos, concluindo uma intervenção que o presidente russo Vladimir Putin tenta discretamente reabilitar.

Em 15 de fevereiro de 1989, a URSS retirou suas últimas unidades do Afeganistão, depois de dez anos de intervenção em apoio ao "regime irmão" comunista de Cabul contra a rebelião islâmica.

Essa retirada, decidida por Mikhail Gorbachov, foi uma derrota humilhante para a União Soviética e contribuiu para a sua queda.

Naquele dia, Kojukhov, um correspondente de guerra, atravessou a Ponte da Amizade sobre o Amu Darya entre o Afeganistão e o Uzbequistão, ex-república soviética, a bordo do penúltimo veículo blindado do último comboio, com suas pequenas bandeiras vermelhas.

"Os soldados sonhavam apenas em voltar para casa com segurança", disse à AFP Kojukhov, jornalista do Komsomolskaya Pravda, que vendia mais de 20 milhões de cópias na URSS.

Um desses tanques carregava o corpo de Igor Liakhovich, um recruta de 20 anos, morto no dia anterior e oficialmente a última das mais de 14.000 vítimas soviéticas do conflito.

"Vimos ao longo do caminho que os 'duji' (partidários afegãos) desciam de suas montanhas para observar nossa retirada de longe", recorda o jornalista de 62 anos.

"Os olhos dos habitantes das aldeias nevadas estavam cheios de ódio ou ressentimento, porque ficariam à mercê do destino", comenta.

Para este jornalista e breve porta-voz do então primeiro-ministro Vladimir Putin em 2000, "a intervenção no Afeganistão sempre foi uma aventura trágica e sem sentido".

- "Justificar" a oposição aos ocidentais -

Muito impopular, esta invasão foi oficialmente condenada pela URSS em 1989 em plena "glasnost", a política de transparência imposta por Gorbachev.

Mas esta visão é agora questionada por influência de veteranos. No final de janeiro, o Comitê de Defesa da Duma, a câmara baixa do parlamento russo, aprovou um projeto de resolução que considera a intervenção "historicamente injusta a condenação moral e política" da intevenção.

De acordo com este texto, a intervenção contribuiu para a luta contra "grupos terroristas e extremistas", reduziu as "ameaças à segurança" da URSS e limitou a produção de drogas susceptíveis de atingir o seu território".

Já em 2015, o presidente Vladimir Putin justificou implicitamente a invasão, que, segundo ele, pretendia "responder a ameaças reais" contra a URSS, admitindo, no entanto, que "muitos erros" foram cometidos.

Para a historiadora Irina Shcherbakova, da ONG Memorial, em um contexto de crescente tensão leste-oeste, "a Rússia retorna a seu passado soviético para justificar sua nova oposição ao Ocidente".

Além disso, "o poder reinventa a guerra no Afeganistão no contexto de outros conflitos", disse ela à AFP, citando a Síria, onde o exército russo intervém desde 2015 em apoio ao regime de Bashar al-Assad e à Ucrânia, onde Moscou, segundo Kiev, apoia militarmente os separatistas pró-russos.

- Traição aos mortos -

Para o analista Piotr Akopov, do jornal online pró-Kremlin Vzgliad, "os veteranos e toda a sociedade russa precisam de uma reabilitação dessa guerra".

"Não precisamos perdoar nada: não usamos napalm (...) e fomos capazes de sair do Afeganistão fazendo com que nossos partidários assumissem o controle, algo que os americanos nunca souberam fazer", acrescentou.

Para Alexander Kovalev, presidente da Associação de Ex-Combatentes da Comunidade de Estados Independentes (CIS), a invasão do Afeganistão foi justificada e Gorbachev "traiu todos os mortos" ao condená-la.

"Sem nossas tropas, os americanos teriam instalado seus mísseis para atacar Moscou", afirmou Kovalev.

"Gorbachev fez bem em acabar com a guerra, mas deveríamos ter continuado a apoiar Cabul com o equipamento necessário para resistir", acrescentou Kovalev, que foi "zampolit" (comissário político) do 860o. Regimento, enviado ao Afeganistão para garantir a retirada do 40º Exército.

O recruta Konstantin Volkov partiu para o Afeganistão no final de 1981, aos 17 anos, cheio de entusiasmo, alimentado pelas notícias que apareciam na mídia soviética.

Encarregado pelo rádio de uma empresa de inteligência, Volkov participou de 70 operações militares e, em uma delas, conseguiu interceptar uma importante comunicação do inimigo, o que valeu a ele uma condecoração.

Desmobilizado em 1983, são e salvo, o conflito o perseguiu por 15 anos. Ele se tornou pai e agora é o "Padre Konstantin" que se reúne em sua igreja em Darna, a 45 quilômetros ao norte de Moscou, com cerca de outros trinta "afgantsy" (ex-combatentes no Afeganistão) em todos os dias 15 de fevereiro para recordar a retirada.

"Eu sugiro aos meus ex-parceiros que façam penitência e parem de pensar muito sobre o que fizeram durante aquela guerra", conclui.

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