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O rapper francês Shurik'n do gruppo IAM se apresenta em Rabat, em 2014

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O Rap é um idioma universal -- e serve também para preservar línguas sob risco de desaparecimento.

Em pequenas comunidades ao redor do mundo, grupos locais incorporaram o rap como uma forma de comunicação, reavivando seus próprios idiomas, além de alcançarem novos públicos com ritmo e poesia.

As histórias de vida e motivações dos artistas são variadas, embora tenham em comum a tendência de consolidar o poder do hip-hop.

Nascido em meio à cultura de rua do bairro nova-iorquino do Bronx nos anos 1970, desde então o hip-hop tem propagado sua tradição mundialmente -- ao menos como forma estilística. Tornou-se uma língua original aceita por diversos grupos.

Na região montanhosa de Antioquia, ao norte da Colômbia, os irmãos adolescentes Brayan e Dairon Tascon conheceram o rap há alguns anos, após assistirem a uma performance na praça central da cidade de Valparaíso.

Eles perceberam uma energia e rapidez nas rimas de rap, nas quais adaptaram sua própria linguagem de Embera, que é falada por aproximadamente 100.000 pessoas, espalhadas pelos territórios da Colômbia e do Panamá.

Em vídeos postados no YouTube, a dupla incorpora movimentos tradicionais dos rappers, acompanhando suas rimas com rápidos movimentos das mãos, traduzindo em gestos a famosa expressão "yo". Porém, ao invés de ostentarem colares de ouro, o dueto utiliza colares e faixas para a cabeça típicas da cultura local, do seu povoado Embera.

A melodia, que mistura batidas do hip-hop e flauta tradicional, expressa uma valorização à cultura intrínseca do local -- "Nós estamos falando, representando e compartilhando bem a beleza (da nossa cultura)", diz um dos versos no idioma Embera.

"Inicialmente, as pessoas julgavam que o rap era apenas um estilo musical simples que falava de drogas e violência. Mas para nós, se trata de como queremos nos expressar e como vivemos", contou Dairon Tascon por telefone à AFP.

Dairon fez questão de afirmar que, por meio do YouTube, os vídeo da dupla já tiveram milhares de visualizações e geraram interesse de pessoas de outros lugares além da Colômbia.

A política da língua

O gênero musical do hip-hop nativo tem crescido bastante como subgênero nos Estados Unidos e no Canadá. Nele, os rappers - assim como os afro-americanos, percursores desse estilo musical - frequentemente criticam, em suas letras, as desigualdades existentes na sociedade.

Minneapolis e St. Paul, com sua cena musical vibrante e tradição local preservada, tornaram-se símbolos desta cena hip-hop.

O rapper Tall Paul, por exemplo, une os idiomas Inglês e Anishinaabemowin em uma mesma música.

A faixa "Prayers in a Song" narra seus desafios em aprender a língua de seus antepassados, uma das mais antigas línguas nativas dos Estados Unidos.

Ele a utiliza no refrão dessa música com intuito de pedir iluminação espiritual. "Isso é o que sinto à respeito da linguagem e da obrigação de revitalizar algo sagrado/ Fracassar em levá-la adiante é desonrar uma Nação", canta ele em inglês.

Ao norte da Noruega, Nils Rune Utsi, que atende pelo nome artístico de SlinCraze, encontrou no rap uma nova forma de contar suas histórias utilizando a sua língua natal, o dialeto Sami.

"Uma música de rap possui muito mais conteúdo do que as músicas comuns. Claro que você consegue escrever uma boa música, mas você se restringe à música em si e ao refrão", conta à AFP o rapper SlinCraze via Skype.

"No rap, se você já tem a letra, você acaba escrevendo muito mais, e se você tem uma história para contar, você faz isso muito detalhadamente", complementa o representante do dialeto Sami.

O artista de 26 anos revela que sofreu bullying por ter sido uma criança gordinha, e encontrou uma refúgio no hip-hop, principalmente ouvindo os versos furiosos de Eminem. Desde então, SlinCraze encontrou no rap um uso mais político.

Suas canções, "Suhtadit" e "Arguing", deixam clara a influência das músicas de Eminem, com a utilização de versos acelerados em conjunção com uma sinistra batida de fundo.

Seus vídeos fazem bastante uso do simbolismo, como um que mostra um pastor orando perante um grupo de fiéis, enquanto outras pessoas mascaradas apontam para as renas, que historicamente foram utilizadas para pastoreio pelos Sami.

"Sim, eu sou Sami", confirma SlinCraze em sua letra. "Eles destroem nossos signos (linguísticos), pisam em nossa língua, fazem o que bem entendem / Porque eles podem".

Aumentando a audiência

SlinCraze conta ter vivido um momento de revolta, após ter lido em um jornal a respeito de uma garota cujo casaco foi incendiado por causa da sua origem Sami.

O rapper percebeu que sua audiência era limitada, uma vez que não mais de 20.000 pessoas se comunicam no dialeto Sami. Porém, ele disse ter ficado lisonjeado ao descobrir ter um público que ouvia as suas músicas mesmo sem entender a letra.

Inicialmente, SlinCraze não deu muita importância à preservação da língua, mas conforme foi aglutinando fãs, passou a se preocupar mais em revitalizar as palavras do dialeto Sami por meio de sua música, ao invés de simplesmente usar expressões da língua nórdica ou inglesa.

No momento, ele trabalha na produção do seu primeiro EP na Noruega. SlinCraze acredita que ele e outros artistas foram basicamente os responsáveis por "restabelecer a cultura Sami" na Noruega, apos décadas de tentativas do governo em integrar agressivamente os nativos e seus descendentes à sociedade.

"É algo meio estúpido de se dizer, mas trata-se de um momento meio hispter. Muitos jovens agora não têm mais vergonha de mostrar sua origem Sami - eles se orgulham disso, na verdade", argumenta o rapper.

"É bastante gratificante ver essa mudança positiva em meio à cultura jovem, além do interesse dos mais velhos, cujo dialeto havia-se perdido, e que estão agora recuperando sua identidade", conclui.

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